quinta-feira, 29 outubro , 2026

“O pequeno vendedor de amendoins”

Maciel Brognoli
Escritor

Esta é a história de um menino simples e pobre, cujo nome pouca gente se interessaria por saber. Portanto, vamos chamá-lo simplesmente de vendedor de amendoins. Na tenra idade de onze anos, o ingênuo menino começou a vender amendoins torrados para os torcedores do Leão do Sul nos dias dos jogos da equipe pela disputa do Campeonato Catarinense. Isso aconteceu no tempo em que Jesus fazia milagres no estádio Dr. Aníbal Torres Costa, segundo costumavam afirmar alguns radialistas esportivos da época. Jesus era o nome do goleiro do Hercílio Luz. Apesar da baixa estatura, ele efetuava defesas consideradas acrobáticas e de difícil execução. Alguns torcedores mais empolgados até ousaram apelidar Jesus de “goleiro milagreiro.”

Certamente há uma dose de exagero no que se refere aos feitos dele debaixo dos três paus, mas os hercilistas que naquela época frequentavam o citado estádio são testemunhas de que Jesus sempre honrou a camisa colorada.

Para O Pequeno Vendedor de Amendoins, comprar o ingresso ao estádio não era opção a ser considerada, pois o lucro obtido com a venda dos amendoins não compensava esse gasto. À espera de alternativa grátis para entrar no estádio, o menino abraçava a latinha de amendoins junto ao peito e ficava parado ao lado da bilheteria. Com olhar resignado de quem se desculpa por existir, sua triste condição feria os olhos, o coração e a consciência de todas as pessoas que transitavam por ali. Mas a verdade é que a maioria das pessoas prefere se compadecer com os irmãos necessitados do continente africano, mas bem de longe, sentados em confortáveis sofás e assistindo às injustiças do mundo pelos telejornais.

Madre Teresa de Calcutá resumiu muito bem essa condição humana, quando disse: “Amar quem está longe é fácil. Difícil é amar o próximo.”

Ignorado, esquecido, invisível, O Pequeno Vendedor de Amendoins era um vulto, um grão de areia minúsculo e imperceptível, um pedaço de carne humana indesejada. Foram raras às vezes que algum torcedor bondoso o convidou a entrar no estádio. Esta gentileza era possível porque crianças acompanhadas de adultos pagantes tinham acesso livre. Nos dias que O Pequeno Vendedor de Amendoins não conseguia entrar pela gentileza de algum torcedor, ele ficava encostado na parede próximo à roleta e de frente para os bilheteiros. Quem sabe, assim algum daqueles homens amolecesse o coração, sentisse pena de sua visível pobreza e o deixasse passar por baixo da roleta; do mesmo jeito que ele fazia quando andava de graça no ônibus.

Caso nada desse certo, ele podia tentar a última opção, a menos recomendada e mais audaciosa de todas: pular o muro. Duas vezes ele conseguiu. Na primeira vez, arranhou-se todo no chapisco e cortou-se nos cacos de vidro na parte mais alta do muro. Na segunda vez, ele deixou a latinha cheia de amendoim torrado escapar das mãos, lá do alto, e espatifar-se no chão. Prejuízos físicos e financeiros! O melhor era continuar a tentar o acesso pela porta da frente.

Certo dia, quando O Pequeno Vendedor de Amendoins, mais uma vez, esperava a melhor oportunidade para entrar no estádio, viu um idoso de sorriso fácil e olhos bondosos a cuidar da roleta. Ele nunca tinha visto aquele homem, mas, em determinado momento, os olhos brilhantes do velhinho encontraram os seus. A magia no olhar daquele homem o fez entender que sua entrada na “Toca do Leão” estava livre. Daquele dia em diante, todas as vezes que o menino magrinho passava pelo estreito espaço entre a roleta e a parede, dirigia ao velho bondoso o olhar de agradecimento mais eloquente que centenas de palavras. E assim, O Pequeno Vendedor de Amendoins entrou de graça no estádio por bom tempo, até que um dia, sem dar sinais de que isso iria acontecer, ele conseguiu trabalho menos árduo e parou de vender amendoins torrados.

Até onde sei sobre esta história, O Pequeno Vendedor de Amendoins nunca mais se deparou com o idoso de olhos bondosos. Porém, muitos anos depois, em visita ao cemitério Horto da Saudade, ele viu afixada numa das lápides a fotografia que parecia ser a imagem que nunca lhe saiu da mente, daquele bom homem. Num gesto espontâneo de gratidão e respeito, ele desceu até o campo vizinho, onde várias espécies de flores silvestres cresciam sem a necessidade de cuidados, colheu algumas, improvisou um ramalhete colorido e enfeitou o túmulo onde supostamente estava enterrado o velhinho de olhar bondoso.

Em 2018, na arquibancada do Estádio Dr. Aníbal Torres Costa, no dia do clássico contra o Atlético Tubarão pelo Campeonato Catarinense, alguém perguntou para o ex-vendedor de Amendoins o que o fez escolher o Hercílio Luz como o time do coração.

– Foi um olhar – respondeu ele, confirmando com movimentos da cabeça e olhar agradecido.
Crônica retirada do livro “Arquibancada vermelha e branca”. Editora Unisul, 2018. Autor: Maciel Brognoli.

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