sexta-feira, 16 outubro , 2026

Opiniões divergentes

Um jornalista surpreendeu-me apresentando-me como “o comunicador Fábio Bento”. Sou teólogo, sociólogo, professor, mas gostei de ser apresentado como “comunicador”. Gosto de me comunicar. Escrevo para me comunicar, para publicar e não por escrever, nem para vender. Escrever sem publicar não tem graça. Comunicação é via de mão dupla, publicamos nossa opinião para promover a opinião dos outros. “Você falou (ou escreveu) o que eu gostaria de falar”, ouvi muitas vezes. Inicialmente, fiquei preocupado. Não queria que as pessoas deixassem de dizer o que pensam pelo fato de eu já ter dito. Não queria ocupar o lugar da opinião dos outros. Bem, tal temor dissipou-se depois que algumas pessoas me disseram que tiveram coragem de dizer publicamente o que pensam depois de ouvir (ou ler) minha opinião. Fiquei aliviado. Não estava promovendo a omissão, mas a participação!

“Fabio, você está sendo popular demais. Deve ser mais acadêmico ao escrever”, ouvi de um leitor. “Fabio, fico feliz de ler o que você escreve porque consigo entender o que você escreve, mesmo você sendo (bacharel e) mestre em teologia e (bacharel, mestre e) doutor em sociologia”, disse-me outro leitor. “Fabio, você cita demais a Itália”, disse um. “Não escreva tanto sobre questões locais”, disse outro. Num artigo, usei algumas expressões em latim. Recebi elogios de uns e críticas (amigáveis) de outros: “Volte a ser povão, Fabio Bento”, disse-me uma queridíssima amiga. Um leitor sugeriu que eu escrevesse menos de religião: “Você escreve bem, mas é católico demais!”.

Outro leitor escreveu para manifestar que “gosta de ler as considerações de um sociólogo católico que não tem vergonha de escrever o que pensa sobre fé e razão”. Maquiavel estava mesmo com a razão quando recomendou aos príncipes (em 1513) que perguntassem a opinião de todos e decidissem sozinhos. Recebi vários e-mails onde os leitores sublinhavam minha “coragem e sinceridade”. De fato, escrevo a partir do coração e, no meu coração, além de minhas sombras, carrego, também, duas paixões fortes: a paixão pelas coisas do céu e a paixão pelas coisas da terra. Adoro viajar pelo mundo, para vasculhar a Terra; e adoro meditar, sozinho ou com os amigos, para vasculhar o céu que existe em cada um de nós. Quando adolescente, estudei num colégio católico e fui suspenso das aulas de religião por um ano. O professor de religião não gostava de mim, e acho que ele tinha razão. Eu dizia que religião era “coisa para guria feia que não conseguia arrumar namorado”.

Não gostava de religião também porque era eu que pagava a mensalidade (o pai me dava o dinheiro) e havia um irmão (um religioso) que brigava quando faltava uma moedinha. “O senhor é mesmo um…”, e lá ia eu de novo para a sala do diretor. Bem, quando eu tinha 17 anos e estava no terceiro ano do segundo grau, conheci uma menina bonita, inteligente e que rezava bastante. Ela mudou meus conceitos sobre religião e feiúra. No ano anterior, sofri dois acidentes de moto (a nossa era uma turma meio rebelde). Mas eu tinha mais medo do tédio do que da morte. Numa tarde de abril de 1980, folheei um Novo Testamento e iniciei a ler com gosto os quatro evangelhos.

Fiquei encantando com a figura de Jesus. Passei a ouvir vozes diferentes dentro de mim. Vozes belas, divertidas, críticas que me acompanham até hoje, 28 anos depois. Comecei a experimentar sensações diferentes dentro de mim. Sensações belas que me acompanham até hoje. Chamei de “Deus” tais sensações e vozes diferentes. Apaixonei-me por elas (ou por ele), paixão que me acompanha até hoje. Pode até ser que eu esteja enganado. Pode ser que tais vozes e sensações diferentes não sejam Deus, mas, mesmo que não o fossem, não as abandonaria, pois são elas que me fazem feliz e me ajudam, também, a segurar a caneta quando escrevo.

Dos leitores sobre ‘Salada com Marasmo’: “Olá, Fabio. Gosto de ler suas reflexões. Boa essa do marasmo e a da colher para ‘desmarasmar’. A minha, de uso cotidiano quanto estou em casa, é caminhar ao longo do mar. Caminho, observo, reflito, deixo-me impregnar do que o mar tem de mais original: a grandiosidade em permanente movimento. Imagina se o mar entrasse em estado de marasmo! Que colher poderia mexê-lo e que braço faria isso? Abraço”. Antônio Mânfio (Balneário Camboriú). “Fabio, boa noite! Acompanho os seus artigos e gostei muito do artigo que trata sobre o marasmo. Continue escrevendo e nos dando mensagens positivas”. Isabel (Criciúma).

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