A sociedade passa por grandes transformações, talvez implacáveis com aqueles que as ignoram. A instabilidade é tão grande que, se não tivermos valores que alicercem a vida, nos perdemos nesse engodo da hipermodernidade que, segundo Lipovetsky (foto), é marcada pelo movimento, pela fluidez, pela flexibilidade, pela cultura do excesso, do sempre mais. A vida acontece num tempo quase esquizofrênico, determinando um tempo marcado pelo efêmero.
E perder-se a si é não viver; optar apenas pelo prazer ou sofrer é minimalizar a vida diante de suas possibilidades. Estar submergido nos modismos que vêm e vão, à revelia do mercado e na dinamicidade atroz das tecnologias, pode levar à banalização da sacralidade da vida como um dom, dos sentimentos, das aspirações que elevam o espírito humano.
Esta instabilidade do presente faz com que ouçamos comumente expressões do tipo “não estamos apenas em época de mudanças, mas em mudança de época”; ou expressões saudosistas: “no meu tempo, as coisas eram melhores, agora os valores são outros, tudo é diferente”; ou pessimistas: “as famílias estão desunidas e se destruindo”, “a libertinagem e a ganância vão destruir o mundo”.
E também em relação aos jovens: ”os jovens de hoje rebelam-se contra a autoridade, não respeitam os mais velhos e tiranizam seus mestres”. Basta olhar nossas escolas hoje, as universidades, a falta de respeito no lar. Mas essa última frase foi escrita há quase 2.500 anos, no tempo de Sócrates. Olhe o que já se dizia! Até parece que foi escrita por um “especialista pessimista” em educação na revista da semana passada.
Então, será que a sociedade não é a mesma? Será que o que muda não são os problemas e os dramas existenciais que emergem a cada situação e a resposta que procuramos dar a eles?
Com esses questionamentos, não quero dizer que não acredito nas transformações que estão acontecendo velozmente. Na verdade, elas estão aí, visíveis; não podemos ignorá-las. Mas transformações sempre aconteceram. Elas dinamizam a história. A falta de respeito, o prazer, o poder, o ter, as relações políticas, a amizade, as virtudes e os vícios, o amor passional e o nobre, sempre estiveram presentes naqueles que fazem a história acontecer.
Penso que o que devemos nos perguntar é algo mais profundo e instigante: o que buscamos, ou melhor, de forma pessoal: o que busco? Que sentido busco realizar neste tempo de vida cercado pela eternidade que me envolve? Para Freud (1856-1939), perguntar-se sobre o sentido da vida é mostrar-se indigno dela, ‘descapacitado’ de lidar com suas melindrosas artimanhas; é estar psicologicamente doente.
Mas, assim como Viktor Frankl (1905-1997), penso que se questionar sobre nossas buscas e o sentido que damos a elas nos coloca diante da própria vida como um dom a ser realizado, possuído, assumido.
Se, de fato, Zygmunt Bauman tem razão ao afirmar que vivemos em tempos de liquidez de valores e de relações, que vivemos em tempos de amor líquido e que nada é para durar, então, o confronto com nossas buscas e, em última instância, conosco mesmos, nos capacita para assumir a existência no confronto com a fluidez da hipermodernidade.

