terça-feira, 6 outubro , 2026

Política: mais coletivo, menos personalismo

“A política toda está em crise, todos os partidos estão. No País, não há dois lados mais na política. É a sociedade contra a política. Não se tem mais um conflito de partidos ou de pensamentos” (José Serra, Estadão, 24jun18).

“A sociedade mudou muito, os novos meios de comunicação estão à disposição do eleitorado” (Fernando Henrique Cardoso, Estadão, 24jun18). As mídias sociais desnudaram os “modos” de se exercer o poder político.

Levantamento do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas sobre a próxima eleição: “83% dos pesquisados declararam ter emoções negativas; enquanto apenas 14% estariam imbuídos de sentimentos positivos.

Sentimentos negativos: ‘preocupação’ (33%); ‘indignação ou raiva’ (27%); ‘tristeza’ (12%) e ‘medo’ (11%). Sentimentos positivos: ‘esperança’ (12%); ‘orgulho’ (1%) e ‘alegria’ (1%).” (Gilberto Amendola, Estadão, 24jun18).

Estamos desencantados: “Descrédito nos partidos atinge 8 em 10 brasileiros. Estudo realizado por instituto ligado a universidades públicas (INCT) aponta número elevado nunca observado em levantamentos similares anteriores.

Razões mais citadas para a antipatia dos brasileiros: há muita corrupção nos partidos (68,3%); partidos não representam interesses dos eleitores (48,4%) (Essas, eu diria, são as razões de um desgosto de “senso comum”).

Partidos não têm programa político a oferecer (18,9%); oferecem pouco espaço de participação aos cidadãos (17,8%); políticos não dão importância para as siglas (13%) (Aqui, vejo, há senso crítico) (Paulo Beraldo, Estadão, 23jun18).

Tenho a pretensão de identificar pelo menos uma das causas da desconsideração dos políticos por programas, do seu mais absoluto descompromisso com siglas, do seu desinteresse pelo engajamento dos cidadãos na vida partidária.

Líderes religiosos, “artistas, apresentadores, e esportistas disputam uma vaga […]. A história recente mostra que a estratégia ‘candidato-celebridade’ vem ganhando espaço nas últimas eleições” (João Pedro Pitombo, Estadão, 18jun18).

Não diria celebridade, mas notoriedade. Candidatam-se tipos notórios. Elegemos tipos notórios. Vota-se na popularidade de candidatos sem nenhum nexo com política. Isso tira o próprio sentido da organização partidária.

A “culpa” disso advém, sobretudo, do nosso sistema eleitoral. Votamos em pessoas, não em partidos. A proeminência de personalidades, não de ideários partidários. A “solução” seria substituir o voto nominal pelo voto em lista.

“O voto em lista fechada. Escolheríamos deputados federais e estaduais e vereadores de uma maneira diferente da que conhecemos em 1945. Nós, hoje, preenchemos esses cargos usando outro princípio, o voto nominal.

A diferença entre os dois está expressa em seus nomes. No sistema atual, nominal, votamos em lista partidária aberta, então, escolhemos basicamente uma pessoa. Com voto em lista fechada, escolhemos um partido.

Com lista fechada, o voto não seria dado puramente aos partidos, mas a uma relação de candidatos previamente ordenada pelas siglas e conhecida pelos eleitores. Não deixaríamos de saber em quem estaríamos votando.

Se fosse adotada, contudo, essa forma, a lista fechada, a primeira reação seria de forte desagrado da opinião pública. As pesquisas mostram que a população não gosta da ideia. A discordância chega a 80%.

O eleitor acredita que ao não poder votar em determinada pessoa seu direito ficaria menor. Ao não escolher diretamente, passaria a ter um voto de segunda classe, que delegaria aos partidos a decisão sobre a representação.

Quem valoriza os partidos não tem dúvida sobre a superioridade do voto em lista fechada. As disputas eleitorais deixam de ser competições entre indivíduos. Os protagonistas da vida política passam a ser os partidos.

O eleitor aprende, na prática, que a política não é [ou deveria não ser] o domínio das singularidades, mas da ação coletiva organizada. Ele não é obrigado a encontrar, no cardápio de individualidades, uma em particular.

O que lhe cabe é escolher um grupo, um conjunto de pessoas que, coletivamente, se propõe a representá-lo com uma plataforma explícita. Existe quem concorda com a ideia, mas acredita que ‘não estamos prontos’.

Quem opõe a ressalva diz que nossos partidos são frágeis e coronelistas demais, que o voto em lista fechada cristalizaria o poder de cúpulas partidárias enferrujadas e autoritárias” (Marcos Coimbra, https://bit.ly/2MzoNaW, editado).

É possível que assim seja. Mas, se adotássemos esse sistema, muito provavelmente modernizaríamos a legislação partidária e estabeleceríamos fórmulas que evitassem os tantos partidos de aluguel e os personalismos.

Todos os dados trazidos acima mostram desconfiança, descontentamento, um sistema esgotado. As razões de quem desgosta de política com “senso crítico” recomendam fortalecer os partidos, não as personalidades.

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