quinta-feira, 8 outubro , 2026

Profissão perigo

 

Recentemente, lançou-se um livro em Criciúma que trata das questões ambientais relacionadas com a extração do carvão mineral e seus impactos. Os impactos ambientais provocados pelos rejeitos desta atividade de mineração são astronômicos, não precisa de um estudo sistemático para perceber tais degradações. Indo in loco pode-se perceber que nossa região foi duramente atingida e ainda sofre com tais rejeitos. O ambiente é a vítima em questão, entretanto, o homem, responsável pela força de trabalho, nas minas, deve ter uma atenção a mais pelos órgãos de fiscalização do setor.
 
A atividade de extração do carvão mineral, que por muito tempo fez e faz parte da economia de nossa região, está em xeque no momento, em virtude da não inclusão do carvão no leilão da energia pelo governo federal. Os debates sobre o tema estão cada vez mais fazendo parte da imprensa local e regional. As questões ambientais estão explicitamente presentes no livro citado acima, gostaria de colaborar com outro ponto de vista sobre a mineração que é a força de trabalho e a precariedade das minas.
 
Existem muitos estudos e pessoas para defender o meio ambiente, porém, percebe-se pouco movimento, para não dizer nenhum, em relação ao trabalhador em seus locais de trabalho. Isto porque o próprio trabalhador é o primeiro a defender tais atividades e ainda defender as empresas em que trabalham tudo em cima de uma ilusão chamada aposentadoria de 15 anos. 
 
Eu e falo em primeira pessoa por ter tido a experiência de baixar uma mina de carvão e exercer a atividade por quase quatro anos. Fui mecânico de subsolo e vi de perto as dificuldades que são as atividades de mineração. Os que defendem esta atividade são porque nunca viram a morte de perto. Eu tive a infelicidade de perder amigos no trabalho e quase morri em um acidente provocado por choque elétrico. É triste você baixar uma mina e vê um colega seu morrer. É triste você ter que acompanhar o sofrimento de uma família na perda de um homem, justo na hora de seu trabalho que lhe dá o pão de cada dia.
 
No período em que estive na mineração, presenciei de perto mortes acidentes e ainda uma mina quase desabar. O maior comentário por parte dos trabalhadores é: isto nunca vai acontecer comigo. O acidente não avisa e quando vê não se dá para fazer mais nada. Ninguém se machuca ou morre porque quer, mas para as mineradoras os trabalhadores sempre são culpados ou nunca morrem embaixo da Mina. Muitos não denunciam as irregularidades nos subsolos por terem medo de perder o emprego. Outros não abandonam a atividade por ter uma aposentadoria de 15 anos de trabalho. Ilusão, e capitalismo. Não existe nenhum trabalhador que se aposenta e vive apenas com o dinheiro de sua aposentadoria, todos trabalham e têm uma renda, quando não continuam embaixo do subsolo. Dinheiro se ganha e se perde. Vida se tem apenas uma. 
 
Na mineração, faz muito tempo que não tem uma catástrofe em nossa região. A última foi em Lauro Müller, já algum tempo, porém, de uns tempos para cá, vêm acontecendo mortes no subsolo. Na sua maioria, por questões de infraestrutura na mineração. É claro que as argumentações nunca serão estas, pois o corpo jurídico dessas empresas e o conselho de marketing são muito eficientes.
 
Espero jamais ter que ver em um jornal uma manchete sobre tragédia na mineração, contudo, é preciso que os órgãos competentes de fiscalização e de engenharia fiscalizem mais esta atividade e possam baixar os subsolos das mineradoras para constatar que algumas minas trabalham no limite de segurança. Existem minas que têm caimento todos os dias e que a insegurança e o medo tomam conta de uma classe amordaçada, iludida e presa ao sistema capitalista de nossa sociedade. É preciso rever estas instalações e ter outros estudos para defender meus irmãos mineiros que calados ficam esperando uma absolvição que jamais virá e que pode a qualquer momento ter um acidente ou uma grande tragédia, não é exagero, é a triste realidade de um setor caótico e obsoleto, até hoje sofro psicologicamente pelo tempo embaixo do subsolo, são traumas imensuráveis e sem definição. É evidente que existem muitos trabalhadores que necessitam do emprego, mas eu sou a prova viva de que sem mineração existe sim trabalho com valorização e respeito. Existem sim muitos empregos e muita gente. Precisando da mão-de-obra capacitada e guerreira como a dos mineiros. Uma classe trabalhadora e corajosa precisa ter um valor melhor. “É durante as fases de maior adversidade que surgem as grandes oportunidades de se fazer o bem a si mesmo e aos outros”. Seja na questão ambiental ou profissional o carvão já destruiu muitos lugares e muitas famílias que perderam o bem maior que dinheiro nenhum e seguro nenhum substituem. Sou um a defender a não inclusão do carvão mineral no leilão da energia, por defender principalmente a vida.

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