Os temores sobre avaliações inflacionadas relacionadas à inteligência artificial provocaram uma forte queda nos mercados globais nesta sexta-feira. Bolsas da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia registraram perdas expressivas, encerrando uma semana marcada por volatilidade e pela pior sequência de resultados em meses.
Wall Street tem forte reversão após resultados da Nvidia
Na abertura dos mercados norte-americanos, os futuros do Nasdaq 100 caíam 0,9%, enquanto o S&P 500 recuava 0,5%. A queda seguiu uma sessão turbulenta na quinta-feira, quando a Nvidia — referência no setor de chips usados em IA — chegou a subir quase 5% após divulgar receita recorde de US$ 57 bilhões no terceiro trimestre, mas terminou o dia em queda de 3,2%.
O Nasdaq Composite também reverteu ganhos de até 2,5% para fechar cerca de 2% mais baixo. Segundo Tony Roth, diretor de investimentos da Wilmington Trust Investment Advisors, o movimento evidencia a “falta de confiança” que domina o mercado.
O Índice de Volatilidade Cboe (VIX) saltou para 26,42, o maior nível desde abril.
Os três principais índices dos EUA caminhavam para sua pior semana desde abril, com o S&P 500 projetando declínio superior a 2% e o Nasdaq acumulando mais de 3% de perdas.
Valorações de IA e juros pesam sobre o sentimento do investidor
Apesar dos resultados da Nvidia e da projeção de vendas de US$ 65 bilhões para o quarto trimestre, investidores demonstraram preocupação com possíveis excessos no setor. Quatro clientes responderam por 61% do faturamento da empresa, elevando o risco de concentração.
Relatório da SEB Research indicou que investidores que tentam justificar avaliações elevadas dependem não apenas do avanço tecnológico da IA, mas também de taxas de juros mais baixas.
O relatório de empregos de setembro, divulgado com atraso, mostrou desemprego em 4,4% e criação de 119 mil vagas, reduzindo expectativas de corte de juros pelo Federal Reserve em dezembro. As chances de uma redução de 25 pontos-base caíram para cerca de 40%.
As ações de semicondutores foram as mais atingidas. O Índice PHLX de Semicondutores recuou quase 5% na quinta-feira. A Advanced Micro Devices caiu cerca de 8%, enquanto a Micron despencou 10,9%. O Bitcoin, considerado por alguns como termômetro de apetite ao risco, caiu abaixo de US$ 83 mil — mais de 30% abaixo do pico registrado em outubro.
Contágio chega à Ásia e Europa
A venda generalizada se espalhou pelos mercados asiáticos durante a noite. Índices de referência na China, Japão e Coreia do Sul fecharam com perda superior a 2%.
Na Europa, o sentimento negativo persistiu. O STOXX 600 havia recuado 1,8% na terça-feira, na pior queda diária desde agosto, e voltou a abrir em baixa nesta sexta-feira.
Analistas destacam que o declínio global sincronizado reflete a dificuldade de equilibrar o “boom” de investimentos em infraestrutura de IA com retornos ainda incertos. A consultoria Bespoke lembrou que, apesar da atenção voltada ao setor tecnológico, a atividade do consumidor representa cerca de 70% da economia dos EUA, o que torna o cenário macroeconômico um fator decisivo para o rumo dos mercados.

