sexta-feira, 10 julho , 2026

‘Saber usar redes sociais é tão importante quanto saber ler’

Educar as novas gerações para que mantenham um distanciamento crítico das redes sociais deve ser tão importante quanto ensiná-las a ler, escrever ou fazer contas, defendeu o cônsul-geral da Alemanha no Rio de Janeiro, Klaus Zillikens, em palestra na terça-feira (22/05) na cidade. Em sua visão, isso é especialmente necessário devido ao “poder de sedução” dessas mídias.

“Cada vez mais pessoas se informam pelas redes sociais sobre o que se passa no mundo. Ou melhor: têm a ilusão de estarem se informando. Por que digo isso? As pessoas se pautam por influenciadores que só confirmam suas próprias visões”, afirmou.

“Por isso, ensinar os cidadãos a lidar com as redes é um dos papéis mais importantes que uma política moderna em educação e cultura tem a cumprir. Alguns cientistas já falam em um novo tipo de analfabetismo”, acrescentou.

As declarações foram feitas em palestra ministrada na Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas do Rio (FGV EPGE) sobre fake news no contexto internacional. Zillikens defendeu enfaticamente uma regulação do Facebook.

Como não cair em “fake news”?

Ele disse que deve haver uma legislação específica para a plataforma e outras redes, assim como acontece com a atuação da imprensa nos países desenvolvidos. O cônsul lembrou, todavia, que as discussões sobre o tema na área jurídica ainda são incipientes.

“Precisamos saber de onde vêm as notícias, e a propaganda tem que se mostrar mais claramente como tal, de modo a ser reconhecida. Além disso, assim como não pode haver exploração descontrolada de recursos naturais – como as florestas da Amazônia e as reservas do pré-sal –, não deve existir a mineração desregulada de dados privados na internet”, afirmou.

Quando o assunto foi diplomacia, Zillikens fez críticas contundentes à atuação do governo russo em diferentes ocasiões.

Zillikens atuou em Donetsk, na Ucrânia, durante a eclosão dos conflitos na Crimeia, região que acabou sendo anexada pela Rússia. Ele chefiou a missão de observação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). No período, disse ter aprendido, “estupefato”, lições importantes sobre guerras no século 21 e fake news.

“Neste novo mundo, os fatos já não têm tanta importância. O que prevalece é a narrativa. Eu vi a Rússia impor, com sucesso, suas versões sobre o conflito ucraniano. Aqueles do lado russo teriam se defendido de forma justa daquela opressão, já que o Ocidente teria armado um complô contra eles. Pouco importou quais eram os fatos”, lamentou.

O caso Lisa

Um caso que gerou atritos diplomáticos entre a Rússia e a Alemanha foi citado para exemplificar que as notícias falsas podem ser combatidas.

Em janeiro de 2016, uma jovem de 13 anos, chamada Lisa, ficou desaparecida por 30 horas. Após reaparecer em casa, ela contou aos pais ter sido violentada sexualmente por homens com aparência do “sul”.

Após a família, de origem teuto-russa, relatar o ocorrido a um jornalista do país, a notícia se espalhou na Rússia, com a divulgação de um vídeo em que homens de aparência árabe supostamente confessavam o crime.

Nos dois países, grupos de extrema direita se manifestaram em redes e nas ruas para culpar os refugiados pela ação. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergej Lavrov, exigiu, em pronunciamento, uma ação do governo alemão para fazer justiça no caso e reduzir a “onda de criminalidade” no país.

Pelas investigações policiais, foi descoberto que a jovem tinha estado na casa de um amigo durante as 30 horas de desaparecimento. Ela não quis voltar para casa por estar com problemas escolares e foi pedir ajuda.

Eleições: tempo de mentiras

O cônsul acredita que é possível observar sinais de menor passividade ante a criação de narrativas falsas. A reação à notícia do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal no Reino Unido, em março deste ano, seria uma evidência dessa evolução.

“Vimos emergir uma opinião pública ocidental mais aguerrida do que há quatro anos, no conflito da Ucrânia”, analisou.

Ao falar sobre o Brasil e as eleições deste ano, o cônsul-geral da Alemanha citou uma frase de Otto von Bismarck, chanceler do Império Alemão: “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra e depois da caça”.

Recorrendo a outra personagem importante da cultura alemã, a escritora Hannah Arendt, o cônsul lamentou que a mentira se relacione com a promessa de um mundo diferente e melhor, enquanto a verdade, afirmou, é estática, ligada ao passado e desprovida de fantasias.

“As mentiras continuarão a existir. Devemos sempre desconfiar de todos que nos prometam uma sociedade e política sem mentiras”, alertou.

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