A saúde mental no futebol deixou de ser um tema secundário. O assunto ganhou novo destaque após o anúncio de rescisão contratual de Philippe Coutinho com o Vasco da Gama, na tarde desta quarta-feira (18). Em carta pública, o jogador afirmou estar enfrentando “cansaço mental extremo” e decidiu priorizar a família e o próprio bem-estar.
O caso reacendeu um debate antigo, mas ainda cercado por tabus: a pressão constante, as críticas públicas, as lesões e a instabilidade da carreira colocam atletas de alto rendimento em risco elevado para depressão, ansiedade e outras condições psicológicas.
O caso Coutinho e a pressão no futebol brasileiro
Ex-Barcelona e Liverpool, Coutinho retornou ao Brasil sob expectativa elevada. No entanto, após atuações irregulares e vaias no jogo contra o Volta Redonda, o jogador foi substituído no intervalo e optou por não retornar ao banco.
Dias depois, anunciou a saída do clube. Na carta, mencionou esgotamento mental e necessidade de cuidado pessoal. O episódio levantou questionamentos sobre o limite entre cobrança esportiva e violência verbal, além da estrutura de suporte psicológico oferecida pelos clubes.
Especialistas apontam que o ambiente competitivo do futebol profissional reúne fatores de risco simultâneos: exposição midiática, redes sociais, pressão financeira, contratos curtos e risco constante de lesões.
O que dizem os estudos sobre saúde mental no futebol
Levantamentos da FIFPro indicam que:
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38% dos jogadores ativos relataram sintomas recentes de depressão ou ansiedade;
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35% dos ex-jogadores apresentam o mesmo quadro;
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Lesões graves podem dobrar ou quadruplicar o risco de transtornos mentais;
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Entre 23% e 28% relatam distúrbios de sono;
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Até 25% apontam consumo problemático de álcool.
No Brasil, pesquisas com atletas de elite indicam que 41% convivem com algum transtorno mental. Dentro desse grupo, 14,6% apresentam sintomas depressivos e 13,5% ansiedade.
A transição de carreira também é crítica. Muitos ex-atletas enfrentam perda de identidade profissional, dificuldades financeiras e isolamento social.
Casos brasileiros reforçam o alerta
O futebol brasileiro registra diversos relatos públicos de sofrimento psicológico.
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Adriano enfrentou depressão durante a carreira na Europa e se aposentou precocemente.
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Thiago Galhardo se afastou após crises de pânico.
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Diego Costa admitiu depressão durante passagem pelo exterior.
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Calleri relatou quadro depressivo após sequência de lesões e derrotas.
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Nilmar passou por tratamento psicológico ligado a lesões crônicas.
Em muitos desses episódios, o problema só veio a público após afastamentos prolongados ou decisões drásticas.
Casos internacionais ampliam a discussão
No exterior, o debate avançou nos últimos anos.
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Dele Alli revelou traumas de infância e vício em medicamentos.
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Richarlison relatou pensamentos suicidas após a Copa do Mundo de 2022, diante de ataques virtuais.
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Andrés Iniesta afirmou ter enfrentado depressão aos 25 anos, mesmo no auge da carreira.
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Marvin Sordell se aposentou aos 28 anos por depressão crônica.
A exposição pública e o ambiente digital ampliaram o impacto psicológico. Comentários ofensivos e ameaças nas redes sociais passaram a ser fator adicional de risco.
O papel das lesões e da instabilidade
Lesões estão entre os principais gatilhos. O afastamento do elenco, a insegurança sobre renovação contratual e o medo de não recuperar o desempenho anterior geram ansiedade intensa.
Além disso, a carreira curta e a alta rotatividade de clubes dificultam a construção de vínculos estáveis. A mudança frequente de cidade ou país pode aumentar o isolamento social.
Treinadores também enfrentam pressão elevada. Estudos indicam que técnicos apresentam índices semelhantes de ansiedade e depressão.
Iniciativas e desafios no Brasil
Alguns clubes avançaram na estruturação de apoio psicológico. O Vasco criou um núcleo integrado de psicoterapia. O Fluminense mantém acompanhamento contínuo. O Santos Futebol Clube desenvolve ações educativas e atendimento especializado.
Apesar disso, parte dos clubes da Série A ainda não possui departamento estruturado de psicologia esportiva. O atendimento, quando existe, muitas vezes é pontual.
Especialistas defendem medidas permanentes:
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Psicólogos integrados ao dia a dia do elenco;
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Protocolos claros para crises emocionais;
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Educação sobre saúde mental nas categorias de base;
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Políticas contra violência verbal e assédio digital.
Quebrando o tabu
A saúde mental no futebol ainda enfrenta resistência cultural. Muitos atletas temem que admitir sofrimento psicológico seja interpretado como fraqueza.
No entanto, o cenário começa a mudar. Relatos públicos de jogadores de alto nível ajudam a reduzir o estigma e incentivam a busca por ajuda.
O caso de Coutinho reforça que rendimento esportivo e equilíbrio emocional caminham juntos. O debate sobre saúde mental no futebol não se limita a um episódio isolado, trata-se de uma questão estrutural que envolve clubes, torcedores, dirigentes e a própria cultura do esporte.
