A possibilidade de manipulação em nossas relações sociais, políticas, econômicas e religiosas nos escandaliza. Pensar que somos manipuladores ou manipulados nos desconcerta, nos deixa perplexos. Mas somos manipuladores? Everett L. Shostrom em seu livro Man, the manipulator, the inner journey from manipulation to actualization, em tradução livre “O manipulador, um processo interno da manipulação à atualização” afirma que o ser humano é manipulador e manipulado e, por vezes, deixa ser manipulado para manipular. Um paradoxo interessante! Mas eu, manipulador? Não eu! Será?
Se adotarmos o pensamento de Shostrom que está em conformidade com o que diz a psicologia moderna, podemos nos perguntar: sou que tipo de manipulador? Ou sofro que tipo de manipulação? Partilho oito grupos de manipuladores autodestrutivos que melhor descrevem esta possível realidade humana.
1) O ditador: este exagera na força. Domina, ordena, vale-se da autoridade, faz tudo o que pode para controlar suas vítimas. As variantes desse grupo aparecem em líderes religiosos, chefes militares e todos que possuem altos postos, como os chefes.
2) O débil: normalmente, é uma das vítimas do ditador, seu oposto. O débil desenvolve uma grande habilidade para manipular o ditador. Exagera em sua sensibilidade. Esquece, não ouve, fica passivamente calado. O super-preocupado, o confuso, aquele que se retira do jogo, são pessoas que pertencem a esse grupo.
3) O calculador: exagera em seu controle. Engana, mente e constantemente trata de ser mais esperto que os demais e controlá-los. Variações desse grupo: o sedutor, o chantagista e o que intelectualiza tudo.
4) O dependente: é o oposto do calculador. Exagera em sua dependência. É a pessoa que se deixa levar pela mão, que a cuidem. Deixa que outros trabalhem por ela. Indivíduos que são eternamente crianças, os hipocondríacos e aqueles que estão sempre chamando a atenção para si pertencem a esse grupo.
5) O cafetão: exagera em sua agressividade, sua crueldade e sua falta de benevolência. Controla mediante ameaças implícitas de algum tipo. É o que humilha, o que odeia, o mal, o que ameaça.
6) O bonzinho: exagera em seu carinho, seu amor, e te mata com eles. Em certo sentido, é muito mais difícil de lidar que o cafetão. Você não consegue brigar com o bonzinho. Por mais curioso que pareça, em qualquer conflito com o cafetão, o que quase sempre ganha é o bonzinho! Variações do bonzinho são aqueles que sempre tratam de agradar, os que nunca ofendem, os “virtuosos”, os que nunca pedem o que querem.
7) O juiz: exagera em sua atitude crítica. Desconfia de todos e culpa a todos. Está sempre ressentido e é difícil que perdoe a alguém. Pessoas como o “sabe-tudo”, o que faz culpável a todos e a tudo, o colecionador de ressentimentos, o que está sempre comparando, o vingador e o carrasco pertencem a esse grupo.
8) O protetor: é o oposto do juiz. Exagera em seu apoio e nunca emite um juízo. Atento aos demais, é sensível com o sofrimento alheio e se nega a permitir que seus protegidos se decidam por si mesmos, cresçam e se desenvolvam. Não se preocupa com suas próprias necessidades, mas apenas com as dos outros. As variações desse grupo: a mãe super-protetora, o defensor desmedido, o teme ou sofre pelos demais e o que está sempre ajudando.
Em geral, o manipulador exagera em qualquer desses protótipos ou em suas combinações. Quando nos inclinamos muito para um desses tipos, projetamos sua característica oposta aos que nos rodeiam, fazendo-os nossas vítimas. Por exemplo: a mulher débil tende a escolher um esposo ditador e depois o controla com suas artimanhas subversivas.
Talvez não estejamos especificamente em um desses grupos, mas nos identificamos com características ou traços desses perfis. Não acredito que a manipulação seja algo determinante em nossa natureza, mas, por vezes, o meio em que vivemos ou a nossa personalidade já estruturada nos condiciona, mas não nos determina. E, frente aos nossos condicionamentos, somos livres para responder, livres para agir e escolher, e isto, invariavelmente e necessariamente, evoca a responsabilidade em nosso convívio social e os valores que direcionam nosso viver para agirmos com sobriedade.

