No dia último dia 12, uma quarta-feira, um triste episódio marcou a história do futebol mundial. O jogador do Cruzeiro-MG, Paulo César Fonseca do Nascimento, popularmente conhecido como Tinga, foi vítima de atitudes racistas por parte de torcedores do Real Garsilaso, do Peru, em jogo válido pela Copa Libertadores da América. Sempre que a bola passava pelos pés do volante cruzeirense, muitos daqueles que estavam presentes no estádio imitavam um macaco. Os atos de racismo foram repudiados de forma veemente por toda a imprensa, pelos jogadores, e até mesmo pelos dirigentes e torcedores do maior rival cruzeirense: o Atlético-MG.
O que mais me intriga neste episódio é que ele contraria a essência daquilo que aprendemos no esporte. Na prática esportiva, seja ela a corrida, a capoeira, vôlei ou futebol, aprendemos rapidamente a conviver com pessoas que são diferentes de nós. Quem é corredor de rua sabe, e o pessoal do Cortuba não me deixa mentir: quando você se disputa uma corrida de rua, correm lado a lado o gari, o médico, o professor, o analfabeto e o diplomado, o negro e o branco, o católico e o evangélico, o ateu e o crente sem religião, a mulher e o homem, os abastados e os desprovidos. Correm juntos pelo mesmo objetivo e pela mesma causa: todos querem vencer e, de fato, todos são vencedores pelo simples fato de estarem ali.
Vemos o mesmo em uma roda de capoeira: capoeira é para homem e para mulher, para todas as classes e gêneros, independentemente de condição: basta saber respeitar as regras e sentir o chamado de berimbau.
Todas estas diferenças mencionadas podem ser encontradas em tantas outras práticas desportivas: em uma academia de musculação, uma quadra de basquete, vôlei ou handebol. No caso de Paulo César Tinga, a diferença se fez presente no campo de futebol por um detalhe de sua epiderme: a cor da pele. Impressionante este tipo de preconceito ocorrer em um país de população originariamente indígena, dizimada pelos colonizadores que pretendiam fazer uma “limpeza étnica” na região. Dia 12/2/2014, os mestiços peruanos mostraram a Tinga e ao mundo que não conhecem sua própria história.
“Eu trocaria todos os meus títulos na carreira por um mundo sem preconceito e igual para todas as raças e classes”, disse Tinga após o lamentável episódio, em uma evidente demonstração de humanismo e inteligência. De fato, somos todos diferentes porque somos indivíduos. Até mesmo gêmeos univitelinos possuem diferenças. Entretanto, somos todos iguais em humanidade, independentemente de nossa condição. Será possível duvidar disso?
Este episódio ocorrido no Peru. A violência, ainda frequente nos estádios brasileiros, mostra que aquilo que há de mais essencial no esporte, tantas vezes é esquecido. O esporte existe para nos enobrecer, não para nos tornar abjetos. Meu adversário não é meu inimigo: é meu irmão. Sou diferente de Tinga? Para mim, não há qualquer dúvida na conclusão.
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