COLUNISTAS | AOS 45 | KARINE MENDES
Todo mundo já ouviu isso.
Depois de uma derrota: ‘técnico não entra em campo.’ Depois de uma vitória: ‘foi o grupo, foi o elenco, foi a raça dos jogadores.’
O técnico vira um enfeite. Um nome na prancha. Alguém que gesticula na beira do campo e serve de bode expiatório quando as coisas não saem como o torcedor esperava.
Mas aí vem uma pergunta que o torcedor raramente se faz:
Por que o mesmo elenco joga de formas completamente diferentes dependendo de quem está no banco?
Por que o Palmeiras de Abel Ferreira virou bicampeão da Libertadores com praticamente o mesmo grupo que não ganhava nada antes? Por que o PSG, sem Mbappé, Neymar e Messi, chegou mais longe na Champions do que chegou com o trio mais caro da história?
A resposta está no banco.
O que o torcedor enxerga. E o que ele não enxerga.
O torcedor vê o gol. O passe. O erro do zagueiro. O pênalti perdido.
O que o torcedor não vê é o treino de terça-feira onde o técnico passou duas horas ajustando o posicionamento do volante.
Não vê a conversa de vestiário antes do jogo onde o técnico olhou nos olhos do jogador nervoso e disse algo que mudou o estado mental dele.
Não vê a decisão de não escalar o titular que está confiante demais e escalar o reserva que está com fome.
Não vê o jogador que estava prestes a perder a cabeça e foi segurado por uma orientação no intervalo.
O técnico atua o tempo todo. Antes. Durante. Depois.
O que acontece em campo é o produto final de um processo que começa dias antes e que a câmera não filma.
Três técnicos. Três escolas. Um mesmo cargo.

Pensa em Ancelotti.
Cinco Champions League. O técnico mais vencedor da história da competição. Sob o comando dele, cinco jogadores diferentes ganharam a Bola de Ouro: Shevchenko, Kaká, Cristiano Ronaldo, Benzema e Vinicius Júnior.
O que ele tem em comum com todos esses craques? Nenhum deles disse que Ancelotti mandava demais. Todos disseram que ele criava um ambiente onde se sentiam seguros pra jogar.
A liderança de Ancelotti não é de comando. É de confiança. Ele não dá ordem. Ele cria condição.
Agora pensa em Mourinho.

O oposto em estilo. Confrontacional, intenso, presente em cada detalhe. Mas o que ele faz melhor do que quase todo mundo é uma coisa só: criar um bloco. Um nós contra o mundo.
Mourinho já perdeu elencos milionários. Mas quando o contexto encaixa, ele pega grupo mediano e faz time grande. A Liga Conferência com a Roma foi a prova mais recente disso.
E Abel Ferreira.

Chegou ao Palmeiras em 2020 num momento de crise. Sem grandes nomes, sem tempo de preparação. E construiu, tijolo por tijolo, a mentalidade de um time que acredita que pode ganhar de qualquer um, em qualquer jogo.
A revista FourFourTwo, uma das mais respeitadas do mundo, o colocou entre os 50 melhores técnicos do planeta e disse: ‘Transformou a mentalidade do Palmeiras em vencedores em série.’
Mentalidade. Não tática. Mentalidade.
O que separa um técnico bom de um técnico grande
Qualquer técnico de futebol profissional sabe posicionar uma linha de quatro. Sabe o que é pressão alta. Sabe quando usar o 4-3-3 ou o 3-5-2.
A tática é o básico. O mínimo.
O que separa os grandes dos bons não está no quadro tático. Está na sala de reunião, no corredor do vestiário, na conversa individual com o jogador que está em baixa.
Como você motiva o reserva que não joga há três semanas mas que vai entrar no segundo tempo e precisa estar pronto?
Como você mantém o titular que virou ídolo da torcida com os pés no chão?
Como você lida com o jogador de 19 anos que chegou cheio de talento e que a pressão está começando a engolir?
Essas perguntas não têm resposta num manual de tática.
Têm resposta na inteligência emocional, na liderança, na capacidade de ler gente antes de ler o jogo.
O técnico que o Brasil está aprendendo a valorizar
Durante anos, o futebol brasileiro tratou o técnico como um nome pro programa. Demitia rápido, contratava qualquer um, não dava tempo de trabalho.
Abel Ferreira mudou parte dessa conversa.
Ficou. Construiu. Ganhou. E quando não ganhou título em 2025, a diretoria sustentou. Porque entendeu que processo é diferente de resultado imediato.
Ancelotti chega agora pra Seleção Brasileira com exatamente esse perfil: alguém que não precisa gritar pra ser ouvido, que não precisa impor pra ser respeitado.
Ronaldo Fenômeno disse algo que ficou: ‘Os técnicos brasileiros estão dois degraus abaixo do nível mundial. A gente parou no tempo. Precisamos ter humildade pra entender isso.’
Não é xenofobia. É diagnóstico.
A formação de técnicos no Brasil ainda é tratada como secundária. Enquanto a UEFA Pro Licence forma treinadores com psicologia esportiva, gestão de vestiário e análise de dados integrados, a CBF Academy ainda está construindo o caminho.
Então. Pra que serve o técnico?
Serve pra tomar a decisão que o jogador não consegue tomar sozinho no meio da pressão.
Serve pra criar o ambiente onde o talento floresce em vez de murchar sob o peso da expectativa.
Serve pra manter o grupo unido quando a derrota chega e todo mundo quer apontar culpado.
Serve pra enxergar o jogo antes do jogo acontecer.
O técnico não entra em campo. Isso é verdade.
Mas o time que entra é, em grande parte, resultado de quem preparou, quem motivou, quem acreditou quando o grupo duvidou.
Quando o time joga bonito e a torcida aplaude, os créditos vão pro jogador.
Quando o time desmorona sob pressão, a culpa vai pro técnico.
Essa é a injustiça mais antiga do futebol.
E curiosamente, é exatamente o que os grandes técnicos aceitam sem reclamar.
Porque eles sabem o que fizeram antes do apito inicial.
Estrangeiros dominam as semifinais
E veja que ironia. A Copa do Brasil de 2026 chega às semifinais com uma marca inédita: os quatro clubes classificados são comandados por treinadores estrangeiros.
Eduardo Domínguez, argentino, dirige o Atlético-MG, enquanto os portugueses dominam os outros três bancos: Luís Castro no Grêmio, Abel Ferreira no Palmeiras e Pedro Emanuel no Vasco — este último nascido em Angola e de nacionalidade portuguesa.
Um retrato claro da presença cada vez maior de técnicos de fora do país no futebol brasileiro.
Por Karine Mendes | Coluna Aos 45 | Notisul | Setembro de 2026

