sábado, 16 maio , 2026

Um crime

 

Jamais continuaria aquela caminhada se o objetivo não fosse fomentar o meu ódio. Assim o caminho me parece mais longo. A estrada íngreme do morro apresenta-se intransponível. Mesmo num dia de céu aberto e sol escaldante, a visão do cemitério continuava sombria. Não conseguia avistar a paisagem solitária daquele campo se não como algo de coloração acinzentada. Triste e melancólica como toda catedral do esquecimento deve ser.
 
A capela de São Sebastião continuava lá, cada vez mais corroída pelo tempo. Arquitetura morta como maior representação da morte tão presente naquele lugar. Sob os olhos sofridos do mártir, repousavam almas sofridas pelos infortúnios da vida. Flechados pela maldade humana e largados nos sepulcros das consciências de seus algozes. É uma contradição o processo da existência. Persistimos em viver pressupondo esse fim óbvio. Porém, relegamos a ele o espaço mais funesto possível. Um lugar ao qual só recorremos por obrigação ou por destinação perpétua. Mas eu estava ali por crise existencial. 
 
O abandono pelo qual passavam as edificações sepulcrais não era tão impiedoso quanto a indiferença dos que ali depositavam os dejetos de suas culpas. A maior antítese daquele passeio fúnebre era o de perceber que a vida pululava entre a morte. Desde os répteis repugnantes escondidos por entre as covas, até as graciosas borboletas, dando um colorido irônico à mansão dos mortos. 
 
O túmulo ao qual procurava estava na ala dos indigentes. Até na morte somos hipócritas. Precisamos separar ossos nobres de ossos pobres como se isso mantivesse nossa superioridade. Na verdadem tal prática só reforça nossa ignorância sobre o ciclo da vida. O túmulo é um ponto final da existência eminentemente física. Assim sepultamos corpos, mas não sepultamos o sublime significado da existência. Muitos apagados existencialmente, só estão separados do túmulo físico pelo muro. Seguem enterrados em suas existências desprovidas de significado.  
 
Enfim, ali estava a rasa cova que profundamente assombrava minha consciência. Jaziam em paz os restos mortais de meu inferno. Pior do que o mal que ceifou prematuramente aquela vida, era o câncer da culpa que mutilava de forma impiedosa o meu viver mortificado. Soube desfrutar de forma plena os prazeres que a carne proporcionara. Mas desprezei a essência, refutei a alma. E, quando me exigiu a plena entrega, respondi com abandono, abrindo a primeira chaga de seu martírio. 
 
Assim, nesses últimos 20 anos, cumpro meu rito penitencial. Culpo-me por não estender a mão a quem me amava e optar por esta vida medíocre sepulcrada na mentira. Será que o matei? Não sei precisar. Só sei que a desilusão que eu  provocara foi o tiro certeiro capaz de tirar-lhe o prazer de viver. E a Aids se ocupou de finalizar minha covardia. Entregou-se a tantos corpos pelo dissabor de sentir-se usado por quem amara febrilmente. Serei eu o culpado? Não saberia responder. Só me recordo que um velho princípio afirma: “O assassino sempre retorna ao local do crime.” Com certeza, fora um crime enterrar alguém que possuía tanta vida.

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