Neste domingo, um dos maiores escritores de língua espanhola, o peruano Mario Vargas Llosa, completa 74 anos.
Assim como vários intelectuais de sua geração, Vargas Llosa sofreu forte influência do existencialismo de Jean Paul Sartre. Daí o engajamento de sua obra seja na crítica à hierarquia de castas sociais e raciais vigente na América Latina, seja na luta pela liberdade individual na realidade opressiva que imperava no continente.
Em meados dos anos 70, fascinado pela obra-prima Os Sertões, de Euclides da Cunha, e preocupado em mostrar os equívocos de uma esquerda violenta e destrutiva, como a do Sendero Luminoso, que brutalizava seu país na época, Vargas Llosa, “cheio de temor mas também de emoção”, começa a pesquisa que geraria o romance intitulado A Guerra do Fim do Mundo, baseado na epopeia de Canudos, onde foram mortas 25 mil pessoas!
Ele resgata uma guerra ocorrida em 1897, para, alegoricamente, condenar os fanatismos de esquerda e de direita, as muitas ditaduras, comunistas ou militares, que tomaram de assalto a América Latina dos anos 60 a 80.
Em Os Sertões os interessados no conflito são tantos que, às vezes, perde-se o fio da meada: há monarquistas que mudam seus apoios conforme os ventos, há o povo nordestino que tinha Antônio Conselheiro por santo, há os jagunços convertidos, há os republicanos que acabarão por realizar o massacre, há socialistas que viam na ação do Santo Conselheiro uma espécie de vanguarda intuitiva de suas idéias etc.
Mas o que desejavam os amotinados de Canudos? Livrar-se do Anticristo representado pela República e seus “avanços”. O juramento que faziam dá bem a medida das suas motivações: “Juro que não sou republicano, não aceito a expulsão do Imperador nem sua substituição pelo Anticristo. Não aceito o matrimônio civil, nem a separação da igreja do estado, nem o sistema métrico decimal. Não responderei às perguntas do censo. Nunca mais roubarei, nem fumarei, nem me embriagarei, nem apostarei, nem fornicarei por vício. E darei a vida por minha religião e o Bom Jesus”.
Canudos era monarquista mas contra a escravidão. A ojeriza ao censo pode ser explicada da seguinte maneira: por que pretendia a república saber a raça e a cor das pessoas senão para, outra vez, escravizar os negros? E por que interessava-se ela pela religião da população, senão para identificar os crentes antes da matança? A rejeição ao sistema métrico decimal tinha motivação ainda mais disparatada: as medidas inglesas seriam mais monarquistas.
A Guerra do Fim do Mundo é uma obra de ficção, ao contrário de Os Sertões, que Euclides da Cunha escreveu depois de participar da guerra, in loco, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo.
Além da prosa sofisticada, o que mais se destaca em Os Sertões é o rigor científico, especialmente nas duas primeiras partes – A Terra e O Homem. Já o ficcionista Vargas Llosa, ainda que tenha se baseado em uma grande massa de documentos para escrever A Guerra do Fim do Mundo, fabulou para produzir seu enredo, arriscando-se a inventar situações e personagens caricatos.
Vargas Llosa afirma que “nunca teria conseguido percorrer o sertão baiano e penetrar nos labirintos de Salvador sem a ajuda do amigo Jorge Amado, que dedicou muito tempo e energia dando-me conselhos e apresentando-me amigos”.
Ambas as obras merecem ser lidas.

