sexta-feira, 3 julho , 2026

Willy não morreu, encantou-se (1)

Willy é dessas pessoas que não morre, encanta-se. Vive agora nas paragens de sua magia pictórica, de suas paisagens coloridas, com os tambores, bandeiras e rabecas de suas festas do Divino, com os andarilhos que magistralmente retratou, com os frades e monges, com o folclore que eternizou na musicalidade das cores, das auras mágicas com que santificava os personagens, como que, por procuração dos céus, perdoando as fraquezas e pecadilhos dos seres humanos.

Ao lado de dona Célia, lá está ele, agora e eternamente, aproveitando as sombras multicoloridas de suas árvores que maravilham nossos olhos, nossa vida, proseando com figuras tantas imortalizadas pela arte de transcendência ímpar, de simplicidade incomum, clássico e moderno em transfigurar modelos, metamodelos na tessitura fantástica na movimentação algo fovista que impregnava seus quadros.

A primeira pintura do querido amigo Willy que minha memória registra foi um quadro exposto na inauguração do aeroporto de Tubarão – lá estava eu, guri de calça curta, mais impressionado com os tambores, a bandeira, o perfil guerreiro de Anita Garibaldi, que dos DCs-3 da TAC, Cruzeiro do Sul, das peripécias área do Varelinha, que inflamavam a multidão.

Tubarão entrava, imaginava-se, na era dos aviões. Tubarão, na verdade, expunha ao mundo a técnica singular daquele que seria seu artista e seu cidadão mais importante. (O quadro que se chama, parece-me, A fuga de Anita, andou um tempo desaparecido, o que provocou deste quase-cronista, quando estudando no Rio de Janeiro, uma peça publicada no Nosso Jornal intitulada A segunda fuga de Anita).

Depois, já de calça comprida, agora freqüentador das sessões das três da tarde no Cine Vitória, eu ia espiar as internas e alunas externas do Colégio São José, avidamente vigiadas pelas freiras. Antes de retornar para o bairro de Oficinas pelo ônibus circular, eu dava um giro pelas quadras centrais, rua do cinema, praça junto à ponte Nereu Ramos, rua da Catedral.

E ali, novamente, me extasiei com a magia de Willy Zumblick – exposto no bar Pacolam, lá estava um quadro dele parecendo vir em minha direção: uma sedutora mulher meio que desnuda pairando sobre águas encapelas – Vento Sul. Daí em diante, para mim o vento sul é uma mulher que sai do mar para nos acariciar e nos seduzir. Mesmo nas tempestades.

Pouco depois de haver sido eleito presidente da então União Estudantil Tubaronense (UET), Osvaldo Della Giustina transformou-me em dirigente do Partido Democrata Cristão (PDC), mesmo sem ter recebido ainda o título de eleitor, fato que sempre divertiu o nosso ex-governador Antônio Carlos Konder Reis. O PDC fez um acordo com a UDN e lançou Willy Zumblick candidato a prefeito de Tubarão, sob a égide da União Democrática Cristã.

Nem bem dava sete horas da manhã e lá estava o candidato no armazém de meu pai, na Altamiro Guimarães, junto à igreja de São José de Oficinas, chamando-me para percorrer o município e conversar com o povo, distribuir seu engenhoso plano de governo. Na capa do programa, uma caricatura do candidato feita por ele próprio – que o povo depois pendurava na parede como mais um santinho.

Willy falava pouco, mas ouvia com uma sabedoria intuitiva, conversava com uma simplicidade encantadora, a voz e gestos prenhes de afeto. E quando alguém em Oficinas comentou que, para ele ser perfeito, só faltava torcer pelo Esporte Clube Ferroviário, ele, sorriso tranqüilo, declarou: “É verdade, lá em casa os rapazes torcem pelo Hercílio Luz”.

Willy torcia por Tubarão, pelo seu desenvolvimento educacional, cultural, comercial, industrial. Seus sonhos de governante transcendiam o tempo. Naquela época, dizia-se que Tubarão era a principal cidade do sul catarinense. Mas Willy intuía que a economia de enclave, que então alavancava a cidade, teria que mudar de perfil. Compreendia que a liderança de sua amada terra não poderia ficar à mercê dos investimentos federais. Até nisso era um grande artista. (Continua na edição de amanhã).

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