É muito engraçado como aquela velha frase: “santo de casa não faz milagre” é a mais pura realidade. Saímos do estado para visitar as praias do nordeste e mal conhecemos os 500 quilômetros de litoral, emoldurados por lagoas, rios, montanhas e exuberante Mata Atlântica, que existe em Santa Catarina. Grande parte dos habitantes da região Sul nunca foi à serra do rio do rastro, em Lauro Müller, uma beleza natural inigualável em todo o mundo. As cachoeiras da cidade de São Martinho, a 50 minutos do centro de Tubarão, são pérolas que ainda não saíram de dentro das ostras. Isso sempre foi assim, a alface da horta do vizinho sempre dá folha mais bonita e vistosa do que a nossa. O problema é quando o vizinho fica a centenas e milhares de quilômetros de distância, e a beleza não pode ser apreciada de perto, tornando-se mais um sonho utópico, enquanto a realidade palpável definha aos poucos sem ser valorizada da forma que merece.
Falar de belezas naturais locais esquecidas é triste, mais penoso ainda é quando os abandonados são pessoas; lembradas e afamadas por suas obras somente depois da morte. A genialidade de Van Gogh, por exemplo, foi reconhecida somente após seu sono eterno. Vendeu uma única tela enquanto vivo, A Vinha Encarnada, por 400 francos. Em 1990, 100 anos após seu falecimento, outra tela sua, Retrato do Dr. Gachet, alcançou o valor de US$ 82,5 milhões, um recorde até então. Van Gogh não foi um caso isolado, muitos outros antigos mestres das artes passaram por situações semelhantes. Isso é compreensível a medida que a maioria desses ‘esquecidos’ viveram no século 18. Na atualidade, não é admissível que em vida um grande artista seja ignorado por seus conterrâneos, e visto como como gênio somente depois que seus olhos se fecham para a eternidade.
Alguém conhece um senhor chamado José Fernandes, conhecido como Zé Diabo? Tenho certeza que quase ninguém sabe de quem se trata. Com mais de 80 anos e hoje em dia aposentado, Zé Diabo é um grande escultor da cidade de Orleans, no sul do nosso estado. Esculpiu em pedra viva num paredão à margem do Rio Tubarão figuras bíblicas – com uma perfeição em detalhes surpreendente. Apesar do epíteto pouco santo para uma pessoa que dedicou sua vida à arte sacra, Zé Diabo recebeu essa alcunha depois de realizar um trabalho no qual São Miguel Arcanjo luta contra Lúcifer, dentro de uma igreja no interior de Orleans. A imagem do diabo ficou tão “real” que os paroquianos acharam que ele poderia ter um pacto com o demônio. Mesmo com o paradoxo nominal, Zé Diabo é um homem de Deus, e com certeza um dos escultores mais importantes desse país. É grande o acervo artístico dessa extraordinária pessoa, não sendo possível relatar num pequeno artigo a grandeza de suas obras. O objetivo maior é valorizar a imagem esquecida de um artista singular, fazendo com que o povo e o poder público reconheçam e divulguem seus feitos em vida, não somente depois da morte, como costumeira e hipocritamente ocorre. Diante de tudo isso, Albert Einstein tinha razão ao relatar que “A fama é para os homens como os cabelos – cresce depois da morte, quando já lhe é de pouca serventia”.

