quinta-feira, 2 julho , 2026

ZPE pode mudar de cidade

Zahyra Mattar
Imbituba
 
Em 29 de julho de 1988, as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) entraram em cena no Brasil por meio de um decreto-lei. Desde então, o país não conseguiu colocar sequer uma delas em funcionamento. A burocracia, as desvantagens econômicas para grupos restritos, mas poderosos, e a falta de legislação tiraram o Brasil da vanguarda e o colocaram no atraso neste aspecto.
 
Em Santa Catarina, um projeto deste foi estabelecido. A ZPE de Imbituba nasceu no dia 28 de abril de 1994, sob o decreto 1.122, do então presidente da república Itamar Franco,  sob aplausos e com a missão de trazer prosperidade, empregos, novas perspectivas.
 
Hoje, 19 anos, um mês e alguns dias depois, a ZPE de Imbituba segue na condição de promessa e da frustração. Mas, no que depender do estado, que se admita, fez toda a lição de casa, o projeto vai sair do papel de qualquer jeito.
O investimento superior a R$ 15 milhões não ficará perdido e será recuperado. Em 2011, o governo tentou vender a sua parte da ZPE. Não houve interessados. Depois, optou-se pela concessão à iniciativa privada. 
 
Agora, uma nova luz. E, como no título, a ordem é no estilo ‘ou vai ou racha’: ou o estado consegue colocar o condomínio em funcionamento, o que depende exclusivamente do governo federal, ou vai transformar a área em um novo empreendimento.
 
A opção mais em voga é tornar a atual estrutura da ZPE uma área retroportuária para armazenamento de cargas, um negócio bastante lucrativo, e levar o condomínio industrial para outra cidade da região. Uma das cotadas é Tubarão.
 
E nasce a ZPE
Em nível estadual, a ZPE foi estabelecida pela lei nº 9.654, de 19 de julho de 1994, assina pelo então governador Antônio Carlos Konder Reis. Oito dias depois, em 27 de julho, foi criada a Imbituba Administradora da Zona de Processamento de Exportação (IAZPE). A Sociedade Anônima de capital fechado determina a Codesc como proprietária de 99% das ações da ZPE (ou seja: o estado é o sócio majoritário). A prefeitura de Imbituba e o setor privado têm o outro 1%.
 
Como assim ZPE em Tubarão?
Puxa o freio. Antes de mais nada: uma possibilidade deve ser lida como uma possibilidade, como manda o dicionário. Não existe qualquer definição ainda. O exato plano do estado para não queimar mais dinheiro e recuperar centavo por centavo do que já foi aplicado em Imbituba será anunciado ao fim deste mês.
 
O estado é dono de uma imensa área de terra em Tubarão, no bairro Madre. São cerca de mil hectares sem perspectiva de receber qualquer tipo de investimento a curto prazo. 
 
Para abrigar a Zona de Processamento de Exportação, precisaria de meros 10% deste espaço para, estrategicamente, posicionar o condomínio industrial em um ambiente próximo de toda a logística necessária para atrair investidores: aeroporto, ferrovia, rodovia e porto.
 
A escolha, como se percebe, é meramente técnica. “O que não vai ocorrer posso antecipar: não vai mais ocorrer gasto, nem perda. Seja no futuro, seja do que foi feito no passado”, confirma o diretor técnico da ZPE de Imbituba, José João Tavares.
 
Com investimento de R$ 15 milhões em estrutura, o estado amargou, até 2009, um prejuízo astronômico de R$ 2,739 milhões. Até 2010, o custo mensal estimado para resguardar o investimento girava em torno de R$ 150 mil.
 
Desde 5 de janeiro de 2011 sob administração da Companhia de Desenvolvimento de Santa Catarina (Codesc), são aplicados R$ 15 mil por mês para manter a estrutura em Imbituba.
 
Estrutura em Imbituba pode ser completamente reaproveitada
A possibilidade de transformar o atual espaço da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) em Imbituba em área retroportuária não significa, nem de longe, implodir tudo que já foi construído. E não é pouca coisa.
 
Pelo contrário. Toda a área construída seria completamente reaproveitada. O que o governo faria seria apenas abrir os portões para um negócio bastante lucrativo. Para ser ter uma ideia, o armazenamento de apenas um conteiner, por dia,
pode custar US$ 80,00 (ou aproximadamente R$ 169,00). O local comporta, no mínimo, dois mil contêineres.
 
Ainda: se a ZPE for transferida para outra cidade, o estado tem a opção de abrir espaço novamente para a iniciativa privada. Uma concessão da área pode assegurar a construção de nova estrutura, por exemplo.
 
Outro aspecto importante e que merece atenção é o fato de que a ZPE de Imbituba somente não navegou porque falta o alfandegamento da área, algo esperado do governo federal desde 2003. 
 
A estrutura física em Imbituba
De 1994 até ontem, o estado investiu em:
• Terraplanagem de 135 mil metros quadrados.
• Construção de uma cerca com três mil metros lineares.
• Edificação de instalações provisórias para escritório (com 86 metros quadrados).
• Construção do prédio da Receita Federal (com quase 819 metros quadrados).
• Construção da plataforma de fiscalização (um total de 492 metros quadrados).
• Edificação da guarita na entrada (mais de 21 metros quadrados).
• Implantação de sistema de vigilância eletrônica.
 
Os projetos já aprovados à ZPE
Santa Catarina sempre esteve na frente quando o assunto é a ZPE. É a única no país que possui projetos industriais já aprovados pelo Ministério da Indústria e Comércio. São três no total. 
 
Os projetos são de 1997: Tectores’d Eletronic Security Systems Ltda., do setor eletrônico para segurança; Legrand Brasil Ltda., do segmento moveleiro; e a Evershoe Ltda., que atua na área calçadista.
 
Desde 1997, investidores de outros três ramos de atividade pleitearam espaço na ZPE: o setor cerâmico, o de fibra náutica e o de lapidação de pedras. Nenhum deles chegou a apresentar um projeto.
 
O que estas empresas buscam é mão de obra e localização estratégica. Para elas, não importa se é norte, sul, leste, oeste. Querem aeroporto, porto, ferrovia, acesso. Há alguns anos, um investimento assim nem seria cogitado na região.
 
Hoje, apenas o sul catarinense tem esta vantagem.
 
Inclusão de mais segmentos atrai novos perfis de investidores
Um ponto que deverá despertar ainda mais o interesse de grandes grupos de empresas para se instalarem nas Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) brasileiras é a modificação no sistema tributário destas áreas.
 
Além de aumentar o prazo para a implantação dos condomínios, a proposta modifica os percentuais de produção. Se começassem a funcionar hoje, as empresas instaladas nestas áreas obrigatoriamente teriam que destinar 80% da produção à exportação.
 
O restante – 20% – seria comercializado no mercado interno. O texto prevê maior flexibilização neste sentido, inclusive como indutor de fomento à economia brasileira. Os percentuais seriam: 60% para exportação e 40% para o mercado interno.
 
Além disso, é proposto que outros setores de produção, anteriormente não inclusos nas ZPEs, façam parte dos projetos. É o caso dos setores de tecnologia e prestação de serviço, cujos percentuais sugeridos sejam de 50% para exportação e 50% para o mercado interno.
 
Saiba mais
• O que é uma área retroportuária?
A retroárea ou retroporto consiste em um instrumento logístico e aduaneiro fundamental para regular os fluxos nos portos e de extrema importância para a competitividade de portos. São áreas externas onde ocorrem atividades essenciais para o funcionamento dos mesmos. No retroporto, podem ser efetuados todos os procedimentos aduaneiros, além de serem locais onde se pode implantar sistemas informatizados para facilitar o controle à distância, o que permite agilização nas inspeções físicas.
 
• O que é uma ZPE?
As Zonas de Processamento de Exportação caracterizam-se como áreas de livre comércio com o exterior, destinadas à instalação de empresas voltadas para a produção de bens a serem comercializados em outros países. Para produzirem com foco no mercado internacional, as empresas ganham como benefícios, além de vantagens de caráter administrativo, a isenção de tributos e a liberdade cambial, o que significa não ter de converter em reais o produto de suas exportações.

 

 

 

 

 

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