quinta-feira, 25 junho , 2026

Feminismo: eu não diria excessos, mas alguma variação do foco

Rodam na internet campanhas antirracistas. Numa, a aeromoça reconhece o reclame da senhora branca pela companhia de assento, então oferece upgrade. A senhora supõe que é para si, mas é para o homem negro ao seu lado.

Já não cabem, porém subsistem, gestos racistas. Talvez um dia essas campanhas tornem-se desnecessárias, mas elas ainda portam conteúdos civilizatórios, seja para agressores ostensivos, seja para quem nem percebe seus preconceitos.

Racistas em geral não ousam assumir publicamente sua estupidez. Machistas o fazem, e se têm em conta de titulares de preceitos mandamentais religiosos, de portadores de costumes, de senhores de direitos.

Por racismo, já não se matam negros impunemente; em geral, quando tristemente ocorre, há consequências legais. Por machismo humilha-se, agride-se, mata-se. A “minoria” mais ofendida em todos os tempos e lugares foi e é a mulher.

O zeitgeist do pós-Segunda Guerra Mundial permitiu às mulheres adonarem-se de si, alforriando seus corpos (anticoncepcionais) da “vocação maternal”, e emancipando-se economicamente (o sistema capitalista as recebeu bem).

Os reacionários logo tentaram providências. Não deu mais tempo. As feministas surgiram e insurgiram-se. Estão em luta. No que posso, ajudo, mas, sendo homem, não me pertence o protagonismo nessa batalha que se vai estender.

Um tanto de dentro (desejando não ser omisso), um tanto de fora (impondo-me não ser invasivo), penso que se cometem alguns erros: há certos oportunismos, algumas variações conceituais, determinados excessos.

Não suponho que feministas “advertidas” acreditem na possibilidade de luta libertária associada a religiões. A organização de crenças em sistemas de poder (igrejas) são coisa de homens para vantagens de homens. Sempre foi assim.

Não me parece possível elidir a Evolução, negar distinções anatômicas, recusar diferenças hormonais. A anatomia e a bioquímica dos organismos têm “vida própria”. Negá-lo é negar fatos conferíveis no espelho ou em laboratório.

Igualmente vejo como descabido o desdobramento da recusa da biologia: “tudo é cultura” (ou produção histórica). Admitindo-se que assim fosse, seríamos, então, uma cultura de difícil reversibilidade. Não seríamos facilmente reformatáveis.

Ora, somos uma complexidade: biologia (Darwin), cultura (Freud), ideologia (Marx). A luta está, pois, agora que se sabe disso, no decidir sobre o que se fazer com isso (Sartre). O combate está no nivelamento dos direitos civis e dos costumes.

Essa polêmica desdobrada de manifestação de mulheres francesas, centrada na atriz Catherine Deneuve: de cada lado estão mulheres independentes, cultas, capazes de tomar e sustentar posições diante dos acontecimentos do mundo.

Em resumo, 30 destacadas militantes feministas francesas reagiram ao artigo publicado no dia anterior (09jan18) no jornal Le Monde por 100 mulheres expressivas do mundo das artes ou da vida intelectual.

Elas defendem a “liberdade” dos homens de “importunar” mulheres e apontam “onda purificatória” após acusações contra o produtor Harvey Weinstein. Ele é delatável, mas não o é mais que o oportunismo moralista suscitado pelo fato.

As feministas dizem que o manifesto contracorrente tenta abafar debate durante muito tempo oprimido. Se eu tivesse que votar sem discussão, depositaria meu sufrágio a favor das mulheres que denunciam. Mas a coisa não é simples.

Tomo da controvérsia a declaração de Laurence Rossignol, ex-ministra francesa dos Direitos da Mulheres, deplorando “a estranha angústia de deixar de existir sem o olhar dos homens, que leva mulheres inteligentes a dizer coisas estúpidas”.

Bem, do tanto discutido, fico nisto: não existe feminino sem o olhar do masculino, assim como não há o masculino sem o olhar do feminino. Somos o olhar do outro. Aí, sim, entra a cultura: gênero é História, é olhar social interpelativo.

Negar o olhar constitutivo do outro sobre mim é negar a condição relacional humana. Não há humanidade sem olhares, dizeres, interpelações. Os negros eram rês porque não eram olhados, constituídos sob um olhar; eram “invisíveis”.

As mulheres também o foram. Eram “ajudadeiras”, protegidas, princesinhas. Agora reivindicam igualdade. Cuidam de si. Alguns excessos, alguma perda de foco. Há erros. Mas é da luta. Homens não erram menos. Errar não faz mal.

Essas mulheres que fizeram o manifesto e as que reagiram a ele, contudo, parece, desfocaram a questão. As primeiras estão certas. Cabe a “cantada”, o que não cabe atropelar o consentimento. Não significa não.

As segundas equivocam-se ao negar o “direito de abordagem”. O fulcro da questão é que esse “direito” é discutido como “dos homens”. Eu, no meu feminismo, afirmo: esse “direito” é igualmente das mulheres. E muitas já o praticam.

Alguns homens talvez fiquem apreensivos em sua fragilidade macha. Outros, não. Muitos gostamos de existir pelo olhar da mulher, de ser convidados, de receber “cantadas”. Eu até já ganhei flores não consentidas. E gostei.

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