“Tem muita gente que aproveita e se alimenta do suor dos outros. Eu não.” José Rubens da Silva, de 83 anos, é o homem em situação de rua que teve sua imagem captada e viralizada ao almoçar em um restaurante de luxo na Região Centro-Sul de Belo Horizonte no início desta semana.
O homem, que parecia anônimo, tornou-se popular nas redes sociais. Mas, nas ruas, já era muito conhecido. Com um problema de locomoção, José Rubens perambula muito pelas vias movimentadas do Centro da capital. Na terça-feira, saiu para comprar um conjunto de roupas, mas a fome fez com que batesse na porta do Benvindo, restaurante localizado em Lourdes, bairro sofisticado e com o metro quadrado mais caro da capital.
Foi na Rua Gonçalves Dias, no Bairro Funcionários, que o senhor foi encontrado nesta quinta-feira pela reportagem do portal Estado de Minas. Sentado em um pano azul, que ele chama de sofá, confirmou: “Sou o Azulinho”. Ele vestia a mesma roupa do dia do restaurante.
José nasceu no Bairro Saudade, na Região Leste de BH, segundo ele na “carroça” do pai. Nas mãos, leva a tatuagem “mãe, amor e Deus”, mas pouco sabe sobre por onde anda a família. Sente falta da madrinha, com quem foi morar aos 8 anos no Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul.
Muito acanhado, preferiu não contar sobre sua situação de rua e os laços familiares. Entretanto, diferentemente do que se acreditava, o homem não é catador de material reciclável: “Não preciso disso. Deixo pra quem precisa”, afirmou Azulinho. Ele conta que vive da sua aposentadoria e é atleticano de coração.
Normalmente, ele almoça em “restaurantes em que alguém possa atendê-lo”. Ao ser questionado sobre seu prato favorito ele disse: “Rã assada na brasa”. O prato lhe traz lembranças dos seus 14 anos quando ia pescar no Rio de Janeiro. Mas é uma iguaria muito difícil de encontrar. “Gostaria de um arroz de forno com asinha frita, acompanhado de refrigerante. Guaraná, mas não pode ser zero.” Azulinho ainda contou que não bebe bebidas alcoólicas e, por isso, não tomou mais que duas taças de vinho no restaurante. A reportagem lhe ofereceu um lanche. Azulinho aceitou, sob a condição de que ele próprio pagasse. Pediu refrigerante e dois pães com mortadela. Comeu um e dispensou o segundo.
Encontrá-lo demandou apenas uma tarde. Apesar de ser reconhecido pela repercussão apenas agora, o homem já é muito conhecido pelas ruas. “É o Azulinho”, apontou um homem ao ver uma foto mostrada pela reportagem. Andando por abrigos e restaurantes populares, todos já o viram.
“Sempre está próximo ao Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg)”, disse um morador em situação de rua. Lá, a dona de uma banca de revistas revela: “Faz alguns meses que não o vejo, mas sempre comprou comigo. Ele ‘dependura’ na conta. Gosta das guloseimas e dos sucos. Sempre paga certinho”, completou.

