Clarice Roballo
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Sabe, gosto de filmes, e em sua maioria, nos últimos meses tenho assistido algumas comédias românticas. Por favor, acho justo aqui um “Salve NetFlix” por separar tão bem os estilos e trazer dos melhores aos piores filmes que já assisti, mas sempre salvando meus dias de tédio, chuva ou aquele dia que a gente reserva para se curtir, sabe?! Bem, se você não sabe, minha indicação é descobrir. Vale muito a pena!
Dou gargalhadas, às vezes me emociono, outras até fico reflexiva. Mas ontem à noite ao assistir uma dessas comédias românticas (nem um lançamento em específico), me deu um estalo, que no momento passou meio despercebido, mas ao levar minha pequena a escola hoje, ela questionou: “E aí mamãe, o que achou do filme ontem?”, por um momento parada ao sinal, fiquei lembrando da história e respondi: “Ah! O de sempre. A mulher apaixonada que se molda para conquistar o cara desejado, que quando se dá conta, ser quem é já devia ser apaixonante.”. Eis que a sempre sábia Eduarda prontamente me responde: “Pois é mamãe, por isso que eu sou sempre eu. Faço ponte e dou pirueta na hora do recreio, porque eu gosto, e meus colegas gostam de mim assim.”. Por um segundo fiquei apreciando sua fala cheia de segurança e desapego ao que os outros poderiam pensar dela, e me orgulhei do que ouvia. A danadinha sabe mesmo das coisas. Ah… minha pequena das atitudes grandes, muitas vezes me faz aprender bem mais do que ensino.
Deixei-a na escola e vim pensando sobre o filme, e todos os outros que já assisti. Para variar somos nós (mulheres e quem mais quiser se encaixar) as princesinhas das famílias que viemos. Ainda vejo muitas amigas serem preparadas para ser a esposa exemplar (sim já tenho quase trinta, e vejo isso acontecer com meninas da minha idade), ou ainda conquistar o homem dos sonhos. Mas para isso você não deve questionar, discutir, ou mesmo apontar os erros que as incomoda. Afinal, homens são mesmo assim, e se não tratar bem ele vai procurar na rua. É, você não foi boa o suficiente. Conviva com isso, engula e aceite, ou você não vai ter seu príncipe, morar em um castelo e viver feliz para sempre. Por muito tempo isso me incomodava profundamente. Queria discutir e gritar aos quatro ventos o quanto achava isso absurdo. Vim de uma família de mulheres que estavam sempre à frente das suas famílias, dos seus lares, a frente do seu tempo, a quem posso dizer que tinham o “saco roxo” como dizem por aí, ou melhor ainda… e seios fartos, mãos calejadas de tanto trabalhar, olhar bondoso, mesmo vendo tanta maldade e preconceito com elas, e palavras doces quando os dias eram amargos. Orgulho-me tanto disso, me orgulho de estar traçando o mesmo caminho. Mas voltemos a nossa reflexão.
Mas e se eu questionar o que me incomoda? Se eu mostrar minhas dores e pedir que elas sejam entendidas, e não respondidas com desprezo, o apontamento de ser bobagem? E se eu discordar da atitude tomada? E se eu não quiser ser princesa? E se eu quiser ser neurótica mesmo? E se eu quiser ser simplesmente quem eu quiser? E se eu quiser ser simplesmente ouvida? E se a opinião dos outros não me importar? Isso quer dizer que nunca acharei o cara, ou a cara que me aprecie e admire por isso?
Vejo nos filmes as protagonistas se desdobrando para preencherem todos os requisitos deles e como prêmio levarem “O Cara” como troféu, e por fim não serem elas, e talvez se darem conta disso, ou levantar a bandeira, que no amor precisamos mudar para o outro. Tá bom. Se te faz feliz, um joinha e um amei pra você. Mas se você se pega questionando se esse é o caminho, aceite meu conselho se te servir.
Já ouvi algumas vezes “você não pode se mostrar demais, você é geniosa, pode assustar” ou “Esse vestido está curto demais, ele deixou você sair assim?”, quer saber? Eu cansei, perdi a paciência para somente dar aquele sorriso amarelo e calar. Eu quero me mostrar, o que, e quanto eu quiser. Quero ser apreciada e admirada pelas conversar mais cultas ou bobas que eu possa ter. Quero tomar a frente, quero questionar SIM, quero colo também, quero ser EU, quero ser humana. Pode ser que ele goste, pode ser que canse, ele pode ser o que quiser também, mas que seja outro humano igual a mim, que se entrelace e me abrace no final.

