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Câmara aprova supersalários que furam o teto constitucional e podem chegar a R$ 77 mil

No primeiro dia de votações após a retomada dos trabalhos legislativos em 2026, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que reestrutura a carreira de seus próprios servidores e abre espaço para remunerações acima do teto constitucional. Na mesma sessão, os parlamentares também deram aval a um novo plano de carreira para os servidores do Senado Federal. Juntas, as medidas podem gerar impacto fiscal superior a R$ 1 bilhão.

Os textos seguem agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Remunerações podem chegar a R$ 77 mil

Com as mudanças aprovadas, os cargos mais altos da estrutura administrativa da Câmara poderão alcançar remunerações mensais próximas de R$ 77 mil, somando salário-base, gratificações e benefícios adicionais — os chamados penduricalhos. O teto constitucional do funcionalismo, hoje fixado em R$ 46.366,19, poderá ser ultrapassado em casos específicos.

De acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a possibilidade de ganhos acima do teto se aplica a 72 servidores em funções estratégicas, como ordenadores de despesa. Segundo ele, a medida estaria alinhada às discussões da Reforma Administrativa.

Gratificações e licença compensatória

Entre os principais pontos do projeto está a extinção da Gratificação de Representação e a criação da Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE). Essa nova gratificação poderá variar entre 40% e 100% do maior vencimento básico dos cargos de analista e técnico legislativo, conforme critérios de desempenho e metas a serem definidos pela Mesa Diretora.

O texto também:

  • Redefine o cálculo da Gratificação de Atividade Legislativa;

  • Atualiza o Adicional de Especialização;

  • Revisa as tabelas salariais de toda a carreira legislativa;

  • Reenquadra secretários parlamentares;

  • Reconhece formalmente os cargos efetivos da Câmara como típicos de Estado.

Outro ponto controverso é a criação da licença compensatória para servidores em funções comissionadas de maior complexidade, prevendo um dia de folga a cada três dias trabalhados, com possibilidade de conversão em indenização — verba que fica fora do teto constitucional.

Aprovação acelerada e críticas no plenário

Os projetos foram aprovados por acordo entre lideranças partidárias, sem admissão de emendas. Destaques apresentados para modificar o texto foram rejeitados, o que acelerou a tramitação tanto do regime de urgência quanto do mérito.

A proposta recebeu críticas de parlamentares de diferentes espectros ideológicos. Deputados do PSol e do Novo questionaram o impacto fiscal e a flexibilização do teto salarial.

O deputado Chico Alencar (PSol-RJ) afirmou que o Congresso reforça sua impopularidade ao priorizar interesses internos. Já Kim Kataguiri (União-SP) criticou a criação de novos custos em vez da redução de privilégios.

Relator da Reforma Administrativa, Pedro Paulo (PSD-RJ) declarou ter votado contra o projeto, destacando que não se opõe a reajustes, mas critica a criação de “penduricalhos” que permitem salários acima do teto.

Pressão fiscal e efeito cascata

Especialistas alertam que, embora os recursos saiam do orçamento do próprio Congresso, a decisão amplia a pressão sobre as contas públicas e pode gerar um efeito cascata em outras carreiras do serviço público.

Para o economista Bruno Perri, o problema não é apenas o valor envolvido, mas os precedentes. “Reajustes no Legislativo costumam servir de referência para outras categorias”, afirmou. Avaliação semelhante faz Fernando Benavenuto, que alerta para o enfraquecimento do teto constitucional como instrumento de controle de gastos.

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