Início Colunistas Leiturando DECIDIDAMENTE, OU APRENDO OU APANHO! 

DECIDIDAMENTE, OU APRENDO OU APANHO! 

Às vezes, a gente precisa de um empurrão do universo para perceber aquilo que, no fundo, já sabe. O problema é que, quando esse empurrão vem em forma de três, quatro ou cinco sinais, fica difícil continuar fingindo que não entendeu. 

Foi exatamente isso que aconteceu comigo no mês de setembro. Três situações diferentes, todas relacionadas à minha atividade física, foram se encarregando de colocar diante de mim uma verdade que eu vinha tentando driblar:  

a autossabotagem é uma excelente fornecedora de desculpas, mas uma péssima conselheira. 

Confesso que nunca fui uma frequentadora assídua de academias. Sempre preferi a caminhada e, depois que conheci o pilates, foi uma paixão. Ir para o pilates era sempre motivo de alegria. Com a minha mudança para a praia e sem um espaço para esta atividade, optei então pela academia. 

A motivação não era a mesma, mas a manutenção dos dez anos de pilates deveria continuar de alguma forma. Pelo menos era o que eu pensava. 

Lá fui eu para a academia, em busca de um treino que me ajudasse na manutenção dos alongamentos e nos cuidados com a fibromialgia. 

Só que setembro chegou e minha autossabotagem tratou de ocupar os primeiros dez dias com atividades profissionais. Assim, eu tinha uma justificativa perfeita para não ir à academia. 

Depois, oito dias de resfriado me jogaram na cama. E aí, naturalmente, eu tinha mais uma boa razão para não treinar. 

Finalmente recuperada, a consciência de um lado dizia: “Já está na hora de levantar e voltar aos treinos”. Do outro lado, a autossabotagem argumentava: “Ora, já que perdeu quase três semanas, que mal vai fazer tirar os últimos dias de folga?” 

Entre a dor na consciência e a autossabotagem, dei voz à segunda. 

Voltei-me então para as atividades no computador, tentando organizar arquivos que também estavam um caos depois de uma rotina exagerada.  

Na verdade, todo aquele exagero havia me tirado do prumo: casa, família, saúde, exercícios… Só o trabalho ia de vento em popa. 

Eis que o universo, mais cedo ou mais tarde, se encarrega de mostrar ao autossabotador que ele está enganando única e exclusivamente a si próprio. 

Enquanto trabalhava horas no computador, parei dez minutos para ver coisas aleatórias (isso me ajuda a descansar a cabeça). Foi nesse momento que me deparei com um vídeo do tailandês  Sawang Janpram, que iniciou suas atividades físicas aos 80 anos, começou a competir aos 96 e, aos 106 anos, foi campeão mundial no lançamento de dardo e disco. 

Num primeiro momento, morri de vergonha. Mas logo pensei: “Ok, é tailandês. Provavelmente lá a cultura deles é diferente da nossa.” Vergonha escondida atrás de uma desculpa. 

Dois dias depois, uma notícia trazia o feito de dois gaúchos, competidores de natação em nível nacional. Um com 102 anos e o outro com 92 anos. 

Aquilo me deixou desconfortável mais uma vez. A reportagem mostrava o treino diário de natação e musculação da dupla, que sorria e brincava durante a entrevista.  

Eu já estava começando a entender onde aquela história queria chegar. Mas, como toda boa autossabotadora, ainda precisava de mais uma prova. 

E ela veio. 

Ontem, domingo, dia 4 de outubro, enquanto assistia às reportagens sobre o resultado das eleições, uma delas falava sobre o índice de abstenção. Mais de 20% das pessoas, por diversos motivos, não foram votar. Era o maior percentual de abstenção registrado até então. 

E foi justamente aí que apareceu a última peça desse quebra-cabeça. 

Para fechar o tema desta crônica, que tem como pano de fundo a autossabotagem, deparo-me com a foto do meu confrade, Sr. Lindomar Tournier, exercendo sua cidadania. Aos 104 anos, ele se deslocou do conforto de sua casa para votar em seus candidatos. 

Aos 104 anos. 

Enquanto isso, eu, com minhas justificativas, meus resfriados, meus arquivos desorganizados, minha rotina exagerada e minhas quase quatro semanas longe da academia, ainda estava negociando comigo mesma a melhor desculpa para não voltar. 

Definitivamente, não era mais possível colocar a culpa na idade, na cultura, na falta de tempo ou nas circunstâncias. 

Talvez o problema não estivesse na falta de disposição. Talvez estivesse na facilidade com que aceitamos nossas próprias desculpas. 

Sawang Janpram, os dois gaúchos e, por último, o Sr. Lindomar não precisaram me dizer absolutamente nada. Cada um, à sua maneira, apenas viveu. E eu, do outro lado da tela, fui obrigada a olhar para mim mesma. 

Decididamente, ou aprendo ou apanho! 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

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