Início Colunistas Leiturando O amor que liberta 

O amor que liberta 

 

O ano era 1992. 

Foi um dos anos mais difíceis da minha vida.                   

Minha filha nasceu em janeiro. Em novembro, quase a perdi. Eu tinha dois filhos ainda bebês e atravessava um divórcio litigioso, daqueles que parecem consumir todas as forças de uma mulher. 

Para quem foi criada para ser “boazinha”, para servir e evitar conflitos em casa e no trabalho, aquele momento era um confronto diário. Muitas Edlas habitavam dentro de mim: a filha, a mulher, a profissional, a esposa que deixava de existir. Mas havia uma que jamais perdia o foco: a Edla mãe. 

Era ela quem me sustentava. Tudo o que eu fazia tinha um único propósito: proteger o bem-estar dos meus filhos. 

Hoje, quando olho para trás, às vezes me pergunto se era realmente necessário sofrer tanto, chorar tanto. Depois percebo que é justamente a caminhada que nos faz enxergar com outros olhos a mulher que fomos. Não porque ela fosse fraca, mas porque ainda estava sendo forjada. 

E fui. Hoje me reconheço muito mais forte. Forte, inclusive, para confrontar aquilo que me desagrada sem culpa. 

 

O ano era 1994. 

Dois acontecimentos marcaram o período em que vivi o luto da separação, um processo que durou quase três anos. 

O primeiro veio de um amigo verdadeiro. 

Cláudio entrou na sala onde trabalhávamos, fixou uma folha no quadro de avisos e, em letras garrafais, escreveu apenas uma frase: 

ISTO TAMBÉM PASSA. 

Naquele momento, aquelas três palavras foram suficientes para renovar minhas forças. 

O segundo veio por meio das primeiras mensagens que começavam a circular pela internet. O texto tinha autoria desconhecida — pelo menos para mim — e chamava-se               

“A Mãe Desnecessária”. 

Nunca imaginei que aquelas palavras me acompanhariam por décadas. 

Na época, talvez eu ainda não compreendesse toda a profundidade da mensagem. Mas ela ficou guardada em algum lugar da alma, esperando o momento certo para florescer. 

 

O ano era 2020. 

Com a chegada da pandemia e o medo real da morte, tomei uma decisão difícil. 

Era hora de “mandar meus filhos embora”. Não porque eu quisesse distância. Ao contrário. 

Queria poupá-los de uma dupla dor, caso eu partisse: o luto pela minha morte e a difícil adaptação de viverem sem mim. Talvez só uma mãe pense nessas coisas. 

Naquele momento, compreendi que havia chegado a hora de descobrir se eu realmente tinha conseguido me tornar… desnecessária. 

Não no amor. Nunca, jamais no amor. Mas na dependência. 

 

25 de julho de 2026 

Ao sair de casa, ainda bem cedo, uma paisagem interrompeu minha rotina. Percorro aquela estrada há anos. Ainda assim, naquela manhã, ela parecia inédita. 

Parei o carro. À minha frente estava uma figueira majestosa, a árvore preferida de minha filha. Fotografei. 

Enviei a imagem para ela, que hoje mora em outro estado. 

Naquele instante percebi que a distância nunca diminuiu a conexão com meus filhos. 

Não preciso estar ao lado deles para senti-los.                                                     

Eles continuam habitando os lugares mais bonitos da minha vida.         

Enquanto contemplava aquela figueira, lembrei-me novamente do texto que li e reli tantas vezes.                                                                       

Finalmente entendi seu verdadeiro significado. Ser uma mãe desnecessária não é deixar de ser importante. 

É amar tanto a ponto de preparar os filhos para caminhar sem precisar segurar suas mãos o tempo todo. 

É oferecer raízes profundas para que possam criar asas. É permanecer disponível, sem ser indispensável.                                            

Porque o amor que aprisiona não protege.                                                              O amor que liberta permanece. 

E talvez seja exatamente essa a missão mais bonita da maternidade. 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

Sair da versão mobile