Quando eu era criança, lá pelos meus dez anos, a Academia Catarinense de Letras já contava com mais de quatro décadas de história. Ao ver as imagens da instituição, com seus acadêmicos vestidos em trajes solenes e chamados de “imortais”, aquilo me deixava intrigada. Perguntava-me: como eram feitas as escolhas? Quais os requisitos para alguém ser indicado e tornar-se imortal?
Na minha inocência e falta de informação da época, eu achava, piamente, que aquelas pessoas jamais morreriam.
O tempo passou. Com a minha atuação profissional na área de Gestão de Pessoas, a literatura e os imortais saíram do radar inquieto daquela menina ideativa e curiosa. Porém, as voltas que a vida dá nos reservam surpresas belas: em 2018 lancei meu primeiro livro e, em 2022, recebi a indicação para fazer parte de um sodalício.
As lembranças da infância ressurgiram imediatamente com o convite: seria aquela a minha chance de não morrer?
Ri alto das minhas memórias. Por respeito e cautela, num primeiro momento, agradeci e declinei; não me sentia preparada para assumir tamanha responsabilidade. O convite, contudo, foi refeito por duas madrinhas. Desta vez, aceitei — já consciente de que posso partir a qualquer momento, mas sabendo que a honra e o orgulho de ocupar a Cadeira Número Oito inundavam o meu coração.
Pensei muito na minha mãe naquele instante. Tenho certeza de que celebraríamos juntas, entre risos e abraços, a minha admissão na Academia Tubaronense de Letras – ACATUL, fundada em 29 de agosto de 2000.
A cadeira que ocupo leva o nome da escritora Myrian Maier Nunes, com quem tive a honra de trabalhar em um de seus projetos literários dedicados ao público infantil. Myrian foi uma das fundadoras da Academia e uma apaixonada declarada pelas letras. Seus textos foram publicados em diversos veículos, como as coletâneas Vozes do Sul, Momento Literário, Fragmentos da Alma e Verso, Jardim das Letras e na revista Força Jovem, além de colaborar assiduamente com os jornais locais.
Lembro-me até hoje da alegria contagiante dela e de sua colega acadêmica, a Professora Mariazinha, no lançamento da obra infantil no Museu Willy Zumblick, onde as duas dividiam a obra. Ela estava radiante.
O amor de Myrian pela escrita me fez compreender o real significado da imortalidade.
O mesmo acontece quando leio o trabalho de outros acadêmicos, cujas palavras, histórias e trajetórias permanecem para além de seus autores e ajudam a recontar a história de nossa amada cidade e região.
Talvez seja justamente isso que mais me encanta na Academia: descobrir que, por trás das cadeiras, dos títulos e das solenidades, existem pessoas, histórias, encontros, afetos e um imenso patrimônio cultural a ser conhecido e preservado.
Fazer parte da ACATUL tem sido um aprendizado constante e uma motivação diária para honrar minha nomeação. Quanto mais me aproximo da instituição, mais percebo o quanto ainda tenho a aprender. Conhecer seus fundadores, seus acadêmicos, suas obras, seus registros e suas histórias tem despertado em mim uma alegria genuína: a alegria de aprofundar meus conhecimentos sobre a Academia e compreender, cada vez mais, a responsabilidade de fazer parte dela.
Agora, esse laço se torna ainda mais profundo. Assumo com imensa alegria o papel de secretária da instituição, caminhando lado a lado com a nova diretoria, liderada pela Professora Jussara Bitencourt de Sá e pelo Dr. Mário Caporal na presidência.
Esta nova missão me dará a oportunidade de viver a instituição por inteiro, de aprender nos bastidores, de conhecer ainda mais sua história e de compartilhar o que tenho de melhor. Mais do que gerenciar processos, vejo na secretaria uma chance de tecer pontes, aproximar pessoas e contribuir para que a memória da Academia continue viva. Afinal, a literatura só cumpre seu papel quando nos une, uma vez que nosso maior patrimônio é a nossa coletividade.
Meu desejo hoje é que aquela criança que fui jamais me abandone. Que a imaginação, a criatividade e as perguntas que um dia me fizeram olhar para os “imortais” com tanta curiosidade continuem vivas em mim.
Porque agora eu sei: ninguém se torna imortal por deixar de morrer. Tornamo-nos imortais quando aquilo que fazemos, escrevemos, ensinamos e amamos encontra morada na memória de outras pessoas.
E talvez esta seja a maior beleza de pertencer a uma Academia: ter a oportunidade de aprender com quem veio antes, viver intensamente o presente e ajudar a construir aquilo que permanecerá depois de nós.
A menina de dez anos finalmente descobriu o que significa ser imortal. E descobriu que a resposta estava, desde o princípio, nas letras.
Nos vemos nas próximas linhas!
