A Polícia Federal identificou uma estrutura digital usada, segundo a investigação, para fabricar documentos que davam aparência de legitimidade a contratos de crédito consignado atribuídos à Tirreno Consultoria e negociados com o Banco de Brasília (BRB).
O esquema combinava dados reais de clientes, planilhas, ferramentas do Microsoft Office, programas desenvolvidos em C#, assinaturas digitais e edição de arquivos PDF. Segundo a PF, a estrutura foi usada para sustentar documentação relacionada a R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado.
A investigação aponta que funcionários do Banco Master produziram documentos em grande escala e também alteraram informações que poderiam revelar a origem ou a verdadeira data de produção dos arquivos.
PF encontrou estrutura para produzir documentos em massa
As informações constam de um relatório técnico-pericial elaborado pela Polícia Federal a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master.
O arquivo, chamado “Investigações internas – Banco Master”, possui 30 slides e registra atividades realizadas entre junho e outubro de 2025.
Segundo a PF, os dados de clientes de operações anteriores eram extraídos de sistemas internos e organizados em planilhas. Depois, essas informações eram utilizadas para gerar novos documentos.
Uma das ferramentas utilizadas foi a mala direta do Microsoft Word.
O recurso permite preencher automaticamente modelos de documentos a partir de dados armazenados em planilhas. Conforme a investigação, a ferramenta foi usada para produzir 2.700 procurações em lote.
A operação também contou com programas desenvolvidos pela área de tecnologia do banco.
Programas separavam páginas de assinaturas
A perícia identificou aplicações desenvolvidas em C# por integrantes da área de tecnologia do Banco Master.
Uma das funções desses programas era extrair de arquivos PDF apenas determinadas páginas. Entre elas estavam páginas de assinatura de documentos originais.
A PF também encontrou um arquivo compactado chamado “erros-whatsapp.zip”, que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento.
Segundo os investigadores, essas páginas poderiam ser reaproveitadas na composição de novos conjuntos documentais.
A documentação também incluía Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), que foram submetidas a processos de assinatura digital.
Datas dos documentos não coincidiam com assinaturas
Um dos principais elementos encontrados pela perícia foi a diferença entre as datas apresentadas nos documentos e os registros das assinaturas digitais.
Em alguns casos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma operação anterior. Entretanto, o registro criptográfico da assinatura apontava para uma data posterior.
Em um dos exemplos citados pela PF, o documento apresentava data de 21 de janeiro de 2025, enquanto a assinatura digital foi registrada em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
A diferença permitiu aos peritos identificar que documentos apresentados como antigos haviam recebido assinaturas posteriormente.
“Precisamos excluir a data”
A investigação também encontrou mensagens que indicariam a intenção de retirar informações dos documentos.
Em uma conversa pelo Microsoft Teams, em 20 de junho de 2025, Allan da Silva Machado escreveu para Moacir Lourenço da Silva Junior:
“e precisamos excluir a data”.
A perícia identificou um exemplo envolvendo um Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal.
O documento originalmente apresentava a data de 24 de fevereiro de 2023, às 13h05. Segundo a PF, essa informação foi retirada visualmente em uma edição realizada em julho de 2025.
Apesar da alteração, outros elementos digitais permitiram aos peritos reconstruir parte da cronologia dos arquivos.
Dados reais teriam sido usados como base
Segundo a investigação, o processo começava com a obtenção de dados de clientes que já haviam realizado operações legítimas.
Entre as informações estavam nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. A PF aponta que esses dados foram usados como matéria-prima para a produção da documentação.
Em julho de 2025, integrantes das áreas de controles e tecnologia trocaram mensagens sobre o levantamento de CPFs e a consulta a contratos armazenados nos sistemas internos.
Os dados foram exportados para arquivos como planilhas e bancos de dados.
As conversas analisadas pela PF também mostram que funcionários identificaram inconsistências na base utilizada.
Em uma das mensagens, um integrante da área de tecnologia afirmou que determinado CPF tinha apenas uma proposta de 2019 e classificou a lista como “meio furada”.
Documentos eram reunidos em novos dossiês
Depois da produção e edição das diferentes peças, os documentos eram reunidos em arquivos únicos.
Segundo a PF, CCBs, procurações e Termos de Consentimento eram combinados em PDFs utilizando o PDF24.
Os arquivos foram organizados em pastas relacionadas à demanda envolvendo o BRB e a Tirreno. Entre elas estavam diretórios identificados como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, “Demanda BRB-Tirreno 299 amostras” e “Demanda BRB-Tirreno 119 amostras”.
A montagem permitia apresentar diferentes documentos como parte de um mesmo conjunto documental.
Comprovantes bancários também foram discutidos
A investigação aponta ainda para tentativas de modificar comprovantes de transferências bancárias.
Em conversa de 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a retirada de informações dos documentos.
Entre os dados que deveriam ser removidos estavam o evento, o número do contrato e o histórico da operação.
Um dos históricos continha a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.
A conversa também revela dificuldade para fazer as alterações em grande escala. Romy teria afirmado que conseguia modificar alguns documentos, mas não seria possível fazer o procedimento manualmente em 2.700 comprovantes.
Auditoria da Deloitte foi citada nas conversas
As mensagens analisadas pela PF também registraram discussões relacionadas à auditoria da Deloitte.
Em 23 de junho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria cobrava informações.
Segundo a investigação, diante de questionamentos sobre inconsistências, foi discutida uma justificativa baseada em “erro operacional na seleção”.
A PF incluiu essas conversas no conjunto de elementos usados para analisar a produção e apresentação da documentação relacionada às operações.
Amostras chegaram a Daniel Vorcaro
A investigação também identificou o envio de amostras da documentação.
Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.
Segundo a PF, posteriormente foram enviados arquivos relacionados a CCBs, procurações e assinaturas.
O relatório pericial registra esse episódio entre os elementos analisados na investigação sobre a documentação apresentada nas operações.
O que a PF identificou
De acordo com o material pericial, a estrutura investigada funcionava em diferentes etapas:
- Extração de dados: informações de clientes eram obtidas dos sistemas internos.
- Produção em massa: os dados alimentavam modelos de documentos por meio de planilhas e mala direta.
- Separação de assinaturas: programas em C# eram usados para extrair páginas de documentos.
- Assinaturas digitais: CCBs recebiam assinaturas por meio de certificados digitais.
- Edição: datas e outras informações eram retiradas de documentos.
- Montagem: diferentes peças eram reunidas em novos arquivos PDF.
- Apresentação: os conjuntos documentais eram utilizados para sustentar as operações relacionadas à carteira da Tirreno.
A PF aponta que o uso combinado dessas ferramentas permitia produzir e modificar grandes volumes de documentos.
A perícia digital, porém, encontrou registros capazes de revelar diferenças entre as datas apresentadas nos documentos e os momentos em que arquivos foram efetivamente assinados ou alterados.
Relação entre Master, Tirreno e BRB
Segundo a investigação citada no relatório, a Tirreno Consultoria teria sido utilizada para formalizar cessões fictícias de créditos consignados com o Banco Master.
Essas carteiras, conforme a apuração da PF, posteriormente foram utilizadas pelo Master em operações envolvendo o Banco de Brasília.
O valor investigado chega a R$ 7,15 bilhões em cessões consideradas fictícias.
A documentação produzida teria como função dar suporte às operações e apresentar os créditos como ativos legítimos.
O relatório técnico-pericial faz parte da investigação conduzida pela Polícia Federal. As conclusões apresentadas pela PF ainda estão sujeitas ao andamento do caso e às decisões das autoridades responsáveis.
