O uso de inteligência artificial na produção cinematográfica se transformou em um dos principais debates do 79º Festival de Cinema de Cannes. Enquanto parte da indústria vê a tecnologia como ferramenta para reduzir custos e acelerar produções, artistas e roteiristas demonstram preocupação com os impactos criativos da IA no cinema.
Entre as vozes mais críticas está o ator e roteirista Seth Rogen, que classificou conteúdos produzidos por inteligência artificial como “lixo podre” durante entrevista ao portal Brut, concedida na divulgação do filme de animação “Tangles”.
“Se o seu instinto é usar IA em vez de se engajar no processo criativo, então talvez você não devesse ser escritor”, afirmou Rogen ao comentar o uso de ferramentas automatizadas para criação de roteiros.
Diretores defendem uso da tecnologia
Apesar das críticas, outros profissionais presentes em Cannes defenderam o avanço da inteligência artificial no setor audiovisual.
O diretor francês Xavier Gens afirmou à Reuters que ferramentas de IA generativa poderiam reduzir drasticamente custos de efeitos visuais e acelerar a pós-produção de filmes.
Segundo o cineasta, a tecnologia teria diminuído o orçamento de efeitos especiais do filme “Sob Paris”, lançado em 2024, de 4 milhões para cerca de 2 milhões de euros. O tempo de pós-produção também poderia cair de um ano para apenas três meses.
Gens afirmou que pretende utilizar inteligência artificial na sequência do longa.
Durante outro painel realizado no festival, cineastas franceses e chineses defenderam uma adoção mais ampla das ferramentas de IA pela indústria cinematográfica.
A atriz Demi Moore também comentou o tema e afirmou que Hollywood precisará encontrar maneiras de trabalhar em conjunto com a tecnologia.
Academia do Oscar cria novas regras sobre IA
O debate em Cannes acontece poucas semanas após mudanças anunciadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar.
No fim de abril, a entidade atualizou as regras de elegibilidade para premiações futuras e definiu que apenas atuações “comprovadamente realizadas por humanos” e roteiros “escritos por humanos” poderão concorrer às indicações a partir da cerimônia de 2027.
A Academia também informou que poderá solicitar detalhes adicionais sobre o uso de inteligência artificial em produções inscritas.
Cannes discute selo para filmes sem IA
O diretor do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, sugeriu a criação de um selo de certificação para filmes produzidos sem uso de inteligência artificial, em modelo semelhante aos selos de produtos orgânicos.
A proposta busca oferecer maior transparência ao público sobre o nível de participação humana nas produções audiovisuais.
“Para andar de bicicleta elétrica, é preciso saber andar de bicicleta normal”, declarou Frémaux ao comentar a necessidade de preservar o domínio técnico e criativo dos profissionais da indústria.
O avanço da IA segue ampliando discussões sobre autoria, criatividade e transformação do mercado audiovisual global, tema que deve continuar no centro dos debates da indústria cinematográfica nos próximos anos.

