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A caminhada de Nikolas e a pauta mais brochante da história

Desde a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, uma parte do eleitorado vive em permanente estado de espera. Sempre faltam 72 horas. Nunca acontece nada. Mas a fé permanece intacta. É um fenômeno curioso muito parecido com o público-alvo de golpes de pirâmide: a promessa nunca se cumpre, o prejuízo é constante, mas a crença sobrevive. O discurso é sempre o mesmo, o modus operandi não muda, e as mesmas pessoas continuam caindo.

A cada novo fracasso, surge uma nova esperança embalada em frases de efeito, lives emocionadas e palavras-chave mágicas. A Lei Magnitsky iria salvar o “mito” e os idosos do 8 de janeiro. Bastariam 41 assinaturas no Senado para um impeachment ser pautado. Gravam vídeos com fundo preto, capturam a audiência por meses a fio e quando nada acontece, esquecem o assunto com uma velocidade assustadora.

Nosso Nikolete, o brabo fã de diva pop, depois de defender a PEC da blindagem e perceber que a coisa pegou mal, finalmente resolveu se meter em algo grande. Pensou: “agora eu si consagro”. E não é que parecia mesmo? Assumiu a relatoria do projeto que prometia equiparar facções criminosas a grupos terroristas. Agora sim. Era a chance de mostrar serviço de bastidor, articulação política de verdade, longe das câmeras. Horas e mais horas em reuniões, comissões, negociação, trabalho árduo — aquele que não rende corte para rede social.
Opa. Trabalho de verdade? Aí já é pedir demais.
Nosso Nick preferiu o caminho conhecido: fez vídeos, muitos vídeos, para provar que era brabo mesmo. Três dias depois, abandonou a relatoria sob a alegação de que temia pela própria vida. Uma ameaça hipotética dessas é mais do que suficiente para fazer qualquer “guerreiro” bater em retirada.

Agora, o ápice do ridículo: a caminhada com a pauta mais brochante da história das manifestações políticas brasileiras. Prisão domiciliar para Bolsonaro e a derrubada do veto da PEC da Dosimetria. É sério isso? Pessoas tomaram chuva, sol, raio na cabeça e fecharam ruas por essa pauta? E o pior: nem isso vai acontecer. Porque nunca foi sobre isso.

A caminhada não tinha como objetivo produzir resultado político algum. Era um fim em si mesma. Um grande ritual de reafirmação de fé. Um culto à personalidade do picareta Nikolas Ferreira, que não tem o menor pudor em usar o nome de Deus para enganar pessoas de boa-fé — pessoas que, vale dizer, têm um sentimento genuíno de injustiça. Elas têm razão em estar indignadas. O problema é outro.

O que entristece não é a revolta, mas o sequestro da esperança do brasileiro de bem. Uma esperança que é capturada, embalada e revendida em forma de likes, views, engajamento e votos. A indignação vira combustível para carreiras políticas, não para mudanças reais.
E aí fica a pergunta que ninguém nessa bolha quer responder: alguém realmente acredita que o partido do mensaleiro Waldemar Costa Neto vai enfrentar o “sistema”? Que esse mesmo partido, sustentáculo do centrão há décadas, liderará uma ruptura institucional heroica? Ou será que tudo isso não passa de mais um espetáculo cuidadosamente ensaiado para manter a plateia sentada, esperando pelas próximas 72 horas?

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