Em período eleitoral, até se entende a estratégia do dividir para conquistar. Faz parte do jogo político e não cabe aqui qualquer puritanismo infantil.
O problema começa depois da eleição. Uma vez eleito, espera-se — ao menos em tese — que o presidente da República una o país, ou, no mínimo, não atue deliberadamente para aprofundar divisões já existentes.
O Brasil, por si só, já convive com um pacto federativo profundamente distorcido. Estados que produzem mais enviam recursos ao governo central, que os redistribui para estados mais pobres. Até aqui, nada de novo: essa é a lógica básica de qualquer federação.
O problema é o resultado prático.
A vida das pessoas nos estados mais pobres do Brasil não melhora. Prefeitos e governadores gastam recursos públicos com shows, festas e projetos inúteis, enquanto produzem miséria social em larga escala. Miséria que, inevitavelmente, é exportada para os estados mais ricos.
A equação é perversa: o estado produtivo sustenta o estado pobre e, ao mesmo tempo, é obrigado — em silêncio, para não ser acusado de preconceito — a absorver fluxos contínuos de pessoas miseráveis, que passam a pressionar serviços públicos já saturados, sem qualquer política séria de integração produtiva.
Tem como isso dar certo?
Evidentemente que não.
Esse modelo só produz ressentimento regional, tensão social e ódio generalizado, sentimentos que crescem justamente porque não podem ser debatidos com honestidade sem que alguém seja imediatamente rotulado como moralmente inferior.
É desse caldo que surgem movimentos separatistas.
Iniciativas como o “O Sul é o Meu País” não nascem do nada, nem são fruto de um delírio coletivo espontâneo. Elas surgem e ganham força quando uma parcela significativa da população passa a perceber — certa ou erradamente — que trabalha, paga e sustenta um sistema completamente injusto.
É preciso dizer com todas as letras: sou contra qualquer movimento separatista. A fragmentação territorial do Brasil seria uma tragédia histórica. Mas também é preciso ter coragem de afirmar que o PT trabalha ativamente para tornar esse tipo de discurso cada vez mais inevitável, ao institucionalizar o conflito e tratar diferenças regionais como guerra moral.
E o presidente, o que tem a ver com isso?
Além das divisões ideológicas já conhecidas — “esquerda do bem versus direita do mal”, “trabalhadores versus burguesia”, “capitalismo versus comunismo” — o próprio governo resolveu transformar o Estado em agente direto do divisionismo.
Na última semana, a Casa Civil da Presidência da República publicou uma peça de propaganda que sintetiza perfeitamente essa lógica perversa.
Nela, o Brasil é reduzido a dois arquétipos morais: de um lado, o playboy — homem branco, jovem, olhos claros — tratado como inimigo social; do outro, o trabalhador — homem negro — apresentado como o único cidadão legítimo, o lado automaticamente virtuoso da nação.
O mau gosto do “tiozão” que se esforça para parecer um jovem descolado — e acaba produzindo essa porcaria — fica para outro texto.
Não é comunicação institucional. É propaganda de guerra social e racial. Preste atenção na etnia dos avatares utilizados e tire suas próprias conclusões.
E vale sublinhar: isso não veio de um militante de internet, tampouco do DCE da USP. Veio do ministério responsável por dialogar com o Congresso, construir consensos e reduzir tensões. Do órgão que deveria ser o mais pragmático do governo.
A mensagem é cristalina: o Brasil está dividido entre bons e maus cidadãos, definidos não por responsabilidade, produtividade ou contribuição social, mas por estereótipos sociais e raciais grosseiros.
É uma visão infantil, maniqueísta e profundamente irresponsável.
Não descreve o Brasil real. Não resolve problema algum. Apenas legitima o ressentimento, aprofunda diferenças regionais e transforma o ódio em política pública.
Quando o próprio Estado passa a operar nessa lógica, o problema deixa de ser retórico. Passa a ser institucional.
E quem insiste em riscar o fósforo não pode depois fingir surpresa quando o incêndio começar.
